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O que acontece com a criatividade ao envelhecermos?

Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos investigou como a capacidade de apresentar ideias fora do comum muda com o passar do tempo

Alison Gopnik e Tom Griffiths*, O Estado de S.Paulo

23 Agosto 2017 | 05h00

Um dia desses, não faz muito tempo, Augie, um neto da família Gopnik de quatro anos, ouviu seu avô dizer, com melancolia: “Eu gostaria de ser criança de novo”. Depois de uma pausa para pensar, Augie veio com uma sugestão: o vovô deveria tentar não comer mais legumes. A lógica foi engenhosa. Comer legumes faz das crianças fortes adultos, portanto parar de consumi-los deveria reverter o processo.

Nenhum adulto jamais viria com uma ideia dessas. Mas qualquer pessoa com um filho de quatro anos poderia contar histórias semelhantes. A criatividade das crianças parece ser superior mesmo à do mais imaginativo dos adultos.

Como essa capacidade de apresentar ideias fora do comum muda ao nos tornarmos mais velhos? Será que começa a desvanecer na adolescência? Antes disso? Para investigar tais questões, nós e nossos colegas realizamos recentemente várias experiências, que relatamos em um novo estudo na publicação oficial da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos.

Começamos com um grupo de participantes de várias idades: pré-escolares de quatro e cinco anos, outros de seis a 11 anos; adolescentes de 12 a 14 anos e adultos. Apresentamos a eles um cenário envolvendo uma máquina física que acende quando se colocam algumas combinações de blocos nela, mas não outras. Uma em duas hipóteses pode explicar como a máquina funcionava.

Ela podia funcionar de uma forma óbvia e comum: alguns blocos individuais fazem que ela se acenda, e outros blocos são irrelevantes. Ou ela poderia funcionar de uma forma mais incomum: seria necessária uma combinação de diferentes blocos para acender a máquina.

Apresentamos aos participantes outro cenário, também com duas possíveis explicações. Esse cenário era social: contamos uma história sobre Sally, que se aproximou de um skateboard e de Josie, que evitou um scooter. Como assim?  A explicação mais comum era que algo a respeito das características individuais de Sally e de Josie fez com que agissem daquela forma – talvez Sally fosse mais corajosa que Josie. Uma explicação mais incomum, embora igualmente válida sobre a situação era importante – talvez o skateboard fosse mais seguro que o scooter.

De frente a esses dois cenários, a maior parte dos adultos na verdade explicou os eventos, seja falando sobre um único bloco ou sobre as características de Sally – com a explicação óbvia.

Então acrescentamos uma “pegadinha”. Outro grupo de participantes viu os mesmos cenários, mas dessa vez eles observaram uma série adicional de fatos que tornaram a explicação incomum mais provável que as mais óbvias. Será que os participantes iriam adotar a explicação óbvia ou tentariam algo novo?

Quando se tratou de explicar a máquina física, o padrão foi direto e franco. As crianças em fase pré-escolar eram mais suscetíveis a apresentar a explicação criativa e nada comum. As crianças em idade escolar eram um pouco menos criativas. E houve uma sensível queda entre adolescentes. Tanto adolescentes como os adultos tinham a maior facilidade em aderir à explicação óbvia mesmo quando esta não se encaixasse nos dados.

Mas havia um padrão diferente quando o caso envolvia problemas sociais. Mais uma vez, os pré-escolares vieram com a explicação mais criativa que os de seis anos ou adultos; agora, porém, os adolescentes foram o grupo mais criativo de todos. Estavam mais inclinados a escolher a explicação menos comum que tanto os de seis anos quanto os adultos.

Porque então a criatividade geralmente tende a declinar quando os anos passam? Uma das razões pode ser que, ao envelhecermos, nós sabemos mais coisas. Isso é em geral uma vantagem, é claro. Mas também pode nos levar a ignorar evidencias que podem entrar em contradição com o que já pensamos. Nós nos tornamos fixados demais no nosso jeito de encarar as coisas para mudar.

Associadamente, a explicação pode ter algo a ver com a tensão entre duas formas de pensar: o que os cientistas de computadores chamam de exploração e aproveitamento. Frente a um novo problema, nós adultos geralmente aproveitamos o conhecimento que adquirimos até o momento, a respeito do mundo. Tentamos rapidamente encontrar uma solução que seja ótima, próxima das soluções que já temos.

Já a exploração – tentar algo novo – pode nos levar a tentar alguma ideia menos comum, uma solução menos óbvia, uma nova peça de conhecimento. Mas isso também pode significar que nós gastamos tempo avaliando possibilidades absurdas que jamais funcionarão algo que tanto os pré-escolares quanto adolescentes são conhecidos por adotar.

Essa ideia sugere uma solução para o paradoxo evolucionário, a infância e a adolescência humanas. Nós humanos temos uma infância excepcionalmente longa e uma adolescência prolongada. Por que tornar crianças tão indefesas durante tanto tempo e fazer os humanos adultos investirem tanto tempo e esforço para cuidar destes?

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A resposta: infância e adolescência podem, pelo menos em parte, ser projetadas para resolver a tensão entre exploração e aproveitamento. Tais períodos de nossas vidas nos dão tempo de explorar antes que precisemos enfrentar as severas e sérias realidades da vida de adulto. Os adolescentes podem não mais se importar tanto com o modo como o mundo físico funciona. Mas eles se importam muito em explorar todas as formas como o mundo social pode ser organizado. E isso pode ajudar cada uma das novas gerações a mudar o mundo.

*Alison Gopnik e Tom Griffiths são professores de psicologia na Universidade da Califórnia, Berkeley. Ela é autora de The Gardener an the Carpenter. Ele é autor, com Brian Christian, de Algorithms to Live By.

Tradução de Claudia Bozzo.

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