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O que cria emprego

O ministro das Comunicações, Ricardo Berzoini, acusou serviços como Netflix e WhatsApp de “subtrair empregos” dos brasileiros. Realmente, segundo o Ministério do Trabalho, o Brasil perdeu 778 mil postos de trabalho num período de 12 meses, encerrado em julho. É difícil achar indícios, no entanto, de que os culpados tenham sido os serviços prestados via internet.

Renato Cruz, O Estado de S. Paulo

23 de agosto de 2015 | 07h45

A principal vítima foi a indústria de transformação, com 427 mil vagas perdidas, seguida da construção civil, que viu desaparecer 355 mil empregos. Apesar de uma perda de 58 mil postos em julho, o setor de serviços, diretamente afetado pelos aplicativos, ainda consegue manter saldo positivo de 33 mil vagas no período de 12 meses.

É verdade que Netflix e WhatsApp criam poucas vagas diretas localmente. Serviços via internet buscam aproveitar a escala mundial, que, além de beneficiar a empresa, permite oferecer alternativas mais baratas para o consumidor. A fala do ministro reflete uma preocupação das teles, que têm dificuldade em competir com as empresas de internet.

A visão equivocada de que toda empresa precisa produzir localmente norteou grande parte da política industrial brasileira nos últimos anos, e o resultado é esse que vemos. Até mesmo nos números do Ministério do Trabalho. Os Estados Unidos, por exemplo, não têm fábricas de televisores há mais de década, e não fazem esforço para recuperá-las. Projetam iPhones e mandam produzi-los na China.

Mas a administração pública insiste em ver o Brasil como um mercado isolado do mundo e, no lugar de dar condições para ampliar a atuação internacional de nossas empresas, prefere criar impostos, taxas e barreiras de mercado. Não por acaso estamos em 57.º lugar no ranking global de competitividade. E caindo.

O que cria emprego é manter a economia estável e a inflação sob controle, com contas públicas bem administradas. É garantir infraestrutura logística adequada. É oferecer educação de qualidade. É investir em pesquisa científica. É ter carga tributária capaz de garantir competitividade externa. É reduzir a burocracia para incentivar empreendedores e atrair investimento. É assinar acordos internacionais para abrir novos mercados.

O ministro está certo no diagnóstico de que existe assimetria regulatória e é preciso fazer alguma coisa. Mas, pelo discurso e pela situação da economia brasileira em geral, é mais provável que obrigações sejam estendidas a empresas de internet do que retiradas das costas de companhias tradicionais.

Netflix e WhatsApp também foram criticadas por “não investir em infraestrutura”. É um pouco como criticar a Coca-Cola por não colocar dinheiro em estradas, já que seu produto é transportado por caminhões.

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