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O que deu errado na economia russa

Sanções do Ocidente em resposta à interferência na Ucrânia desferiram um golpe contra a economia, mas endividamento das empresas é grave, e desvalorização do rublo complica tudo

Economist.com

17 Dezembro 2014 | 10h55


LONDRES E MOSCOU - A Rússia está vivendo uma crise monetária. No dia 15 de dezembro o rublo perdeu 10% do seu valor, depois de já ter sofrido desvalorização de aproximadamente 40% este ano. O banco central elevou os juros acentuadamente, mas, em vez de acalmar os mercados, o salto foi visto como indício de desespero. 

No dia seguinte o rublo chegou a registrar desvalorização de 20% (fechando o dia 10% abaixo do valor anterior). O banco central calcula que o PIB pode ter queda de até 5% em 2015. A inflação está atualmente em 10%, mas deve acelerar rapidamente. Os russos estão fazendo compras em pânico; os bancos estão ficando sem dólares. O que deu errado na economia russa?

Os problemas vinham se formando há muito tempo. A Rússia depende muito da exportação do petróleo (os hidrocarbonetos contribuem com mais da metade do orçamento federal e representam dois terços das exportações) e, na década passada, o país não diversificou sua economia. 

O sistema é extremamente corrupto, as instituições são fracas e não há direito real à propriedade. O Kremlin distribui o dinheiro do petróleo por meio dos bancos estatais às firmas e projetos escolhidos com base em sua importância política e sua posição favorável a Putin, em vez de confiar no mercado para a alocação de capital para as firmas mais eficientes. 

Do ponto de vista da riqueza, a Rússia é o segundo país de maior desigualdade em todo o mundo. Sua população em idade de trabalhar está encolhendo rapidamente.

As sanções impostas à Rússia pelo Ocidente em resposta à interferência do país na Ucrânia desferiram um golpe contra a economia. Mas a causa mais imediata do caos dos dias mais recentes é a preocupação com o setor corporativo russo. 

Em 2015 as empresas russas precisam pagar US$ 100 bilhões em dívidas estrangeiras. Mas, com a queda do rublo, torna-se muito mais difícil quitar dívidas em dólares. Gigantes do setor energético como a Gazprom e a Lukoil estão em situação muito pior do que o público imaginava. 

A petroleira Rosneft depende do financiamento do Kremlin. No início do ano a empresa solicitou ao Kremlin um resgate de US$ 44 bilhões; no dia 12 de dezembro, o banco central ajudou-a emitindo títulos para uma dívida de US$ 7 bilhões denominados em rublos. A segunda solução equivale a imprimir rublos para comprar dólares - medida que só pode enfraquecer ainda mais a moeda.

Existe agora o risco de a crise monetária russa se converter numa crise bancária muito mais ampla. A população pode dar início a uma corrida aos bancos. Uma série de falências corporativas pode deixar o Kremlin pendurado numa dívida imensa. Não surpreende que a confiança no sustento proporcionado pelas reservas de divisas estrangeiras do Kremlin, oficialmente avaliada em US$ 370 bilhões, mas muito abaixo disso na prática, esteja sumindo. O Kremlin reza por uma nova alta no preço do petróleo, mas, no momento, isso parece improvável. Os russos podem impor uma moratória no pagamento de dívidas estrangeiras, mas isso tornaria o país um pária aos olhos dos investidores internacionais. O governo pode tentar impor o controle de capitais, para impedir que o dinheiro deixe o país; mas até a perspectiva de uma jogada como essa corre o risco de surtir o efeito contrário, acelerando a fuga de capitais. A não ser que a Rússia demonstre um compromisso real com as reformas - agindo para acalmar a situação na Ucrânia - o país pode esperar que o caos econômico continue.

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Da Economist.com, traduzido por Augusto Calil, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado no site www.economist.com

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