O que disse o meteorito

‘O meu emprego está garantido por uma questão de meritocracia’, disse o meteorito Bendegó

Gustavo H.B. Franco*, O Estado de S.Paulo

18 Setembro 2018 | 04h00

O meteorito de Bendegó foi descoberto em 1784 no sertão da Bahia. Pesando exatos 5.360 kg, teve sua primeira tentativa de remoção no ano seguinte, quando a pedra, formada de ferro e níquel, escapou da carreta que a levava, e caiu às margens do rio Bendegó, a 180 metros de seu leito original.

Apesar de sua ilustre ascendência autenticamente alienígena, sua denominação veio desse riacho no leito do qual dormitou por mais de um século. Sua remoção para o Rio de Janeiro se deu apenas em 1887, em meio a dificuldades, tanto logísticas quanto políticas, relatadas com precisão por Machado de Assis numa crônica de 27 de maio de 1888, trazendo, ademais, um incrível esforço de reportagem: destaques do diálogo entre o meteorito e José Carlos de Carvalho, da Sociedade Geográfica, chefe da expedição que trouxe o “estrangeiro viajado” para o Museu Nacional.

Conforme o cronista, o meteorito vinha andando, “sempre vagaroso e científico”, a todo momento queixando-se da demora no seu translado:

– Você sabe que nós, lá em cima, andamos com a velocidade de mil raios; aqui nestas ridículas estradas de ferro, a jornada é de matar.

Mais adiante, diante de “rumores” referentes à Abolição e à República, fez observações da mais absoluta impertinência sobre a política local. Mesmo lembrando que não era “doutor constitucional nem de outra espécie”, brincou que ser republicano não implicava em ser abolicionista, pois, afinal, os sulistas nos Estados Unidos não tinham lutado para mudar a forma de governo, mas para preservar a escravatura. Carvalho já se convencera que o seu convidado era um mineral insolente.

Passaram-se, então, 130 anos, nada na vida de um meteorito, quando veio o incêndio que retirou desse torpor o nosso mais célebre alienígena.

Em meio à confusão, entretanto, nossa reportagem conseguiu registrar um momento precioso, perdido pela cobertura do triste evento: segundo fontes, todas deste mundo, o meteorito, “circunspecto, chamuscado e científico”, e também um tanto mal-humorado, teria conversado com o reitor da UFRJ, responsável pela sua hospedagem, quando ele entrou sozinho pelos escombros do museu:

– Roberto, faz tempo que você não aparece. Que tragédia. Não preciso lhe dizer o que eu penso: nós do acervo somos (éramos) 20 milhões de itens, e levávamos só uns R$ 400 mil por ano do orçamento, algo como 2 centavos per capita. Não dá para viver com essa miséria. Cada um de seus alunos custa uns R$ 70 mil por ano, e ninguém paga nada, e 87% do seu orçamento é para pessoal. O que você esperava?

– Era o que me faltava, um meteorito sindicalista e argentário.

O reitor ainda podia desabafar, enquanto os jornalistas não o alcançavam para uma coletiva, talvez incluindo o único sobrevivente da tragédia.

– Falando nisso, li sobre esse dinheiro do Banco Mundial que você recusou, é verdade mesmo, Roberto? Como você foi capaz?

– Pois é, não me estranha que o resto do acervo tenha lhe apelidado de Margareth, a Dama de Ferro. Foi você que trouxe esse modismo neoliberal para o Brasil, não foi? Veja lá, hein? Se forem privatizar essa joça, sei lá o que vai ser de você.

Curioso que não se tenha especulado jamais sobre o gênero do meteorito que, afinal de contas era uma pedra, porém, et pour cause, sem coração. Sua resposta foi impertinente como de costume:

– Roberto, na verdade, o meu emprego está garantido por uma questão de meritocracia. Você é quem corre perigo. Essa encrenca lhe pertence.

– Ora, não me venha com ameaças, a universidade é um espaço de autonomia e de resistência. Eu fui eleito por alunos, funcionários e professores. Minha demissão seria puro autoritarismo.

Assim falando, o reitor já se esgueirava para fora do recinto, gesticulando irritado, para não ouvir, em resposta, os resmungos do Bendegó, que falava sobre Montesquieu, cuja tese acerca da separação de poderes não era para criar países dentro de um país, e que o Judiciário não tinha autoridade para fixar seus próprios salários, tampouco a UFRJ, e que só numa casa de loucos alguém entrega um orçamento de R$ 3 bilhões para uma governança de diretório acadêmico.

*EX-PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL E SÓCIO DA RIO BRAVO INVESTIMENTOS

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