Ações

Empresas de Eike disparam na bolsa após fim de recuperação judicial da OSX

O que dizer dos Brics?

A crise econômica proporcionou combustível novo para o debate sobre o temido declínio do Ocidente e a ascensão do Oriente. Os chamados Brics - Brasil, Rússia, Índia e China - são alardeados como os supostos vencedores econômicos. Mas um olhar por trás dos números sugere que proclamar a vitória deles pode ser prematuro.Projeções sombrias do Banco Mundial indicam uma queda recorde de 2,9% no Produto Interno Bruto (PIB) global em 2009, com deterioração dos balanços de contas correntes, alta do endividamento, aumento do desemprego, mercados acionários instáveis e desmoronamento da confiança. Sim, podem haver alguns "brotos" de recuperação. Os esforços de estímulo da China - uma rápida expansão de investimentos fixos e do crédito para o setor estatal alimentado por vultosas reservas estrangeiras - parece ter causado um efeito previsivelmente positivo, ainda que provavelmente de curta duração. Talvez ainda sejam possíveis recuperações mais amplas, mas modestas, em 2010 e 2011.Mas o caminho para a recuperação completa é incerto. A economia global está numa espécie de ponto de inflexão, um momento de mudança paradigmática. Nesse ponto, entram os Brics. Antes de ficar clara a gravidade da tempestade econômica em formação, os Brics eram os queridinhos dos investidores. E foram inicialmente agrupados num influente relatório de pesquisa do Goldman Sachs em 2001 que previu que o crescimento contínuo de seu PIB poderia sobrepujar o resto do mundo, com os PIBs de China e Índia passando os de grandes potências ocidentais. Esses "mercados emergentes" não são isentos de risco, mas com sua escala continental, com populações grandes e significativo crescimento econômico, eles pareciam atraentes. Em particular para especuladores. Mas a competência econômica envolve mais que estatísticas de PIB e índices de mercado. Isso não significa negar o ímpeto econômico e o notável desenvolvimento dos Brics - em especial de China e Índia. Mas crescimento sustentável e liderança econômica terão de se basear em elementos fundamentais do ambiente econômico. Parâmetros internacionais sugerem que os Brics ainda têm um longo caminho a percorrer. Tome-se a corrupção. Nenhum dos Brics ocupa uma posição muito elevada no levantamento de 180 países publicado pela Transparência Internacional. O Brasil e a Índia aparecem em 80º e 85º lugares, respectivamente. A Rússia está em 147º lugar. A China, em 72º. Se existe corrupção, então não é tão fácil fazer negócios por lá. O Banco Mundial estuda "a facilidade de fazer negócio" em 181 países. Brasil, Rússia e Índia se situam entre o 120º e o 125º lugares. A China ocupa uma posição ligeiramente melhor, o 83º lugar. Nenhum dos Brics liderou o mais recente "Relatório de Competitividade Global" (GCR, na sigla em inglês) do Fórum Econômico Global, que reúne variáveis como estabilidade social e política, sofisticação tecnológica e qualidade de gestão. Dos 134 países classificados, a China aparece em 30º lugar. Índia e Rússia em 50º e 51º lugares, respectivamente, e o Brasil aparece em 64º. O GCR assinala que esses ambientes são assolados por burocracia, corrupção, políticas econômicas instáveis e problemas financeiros. Sob essas perspectivas, os Brics não parecem tão fortes. Brasil, Índia e China têm problemas de distribuição de renda. Brasil e Rússia estão num ponto intermediário do Índice de Desenvolvimento Humano da ONU que inclui 179 países; a China está ligeiramente abaixo e a Índia quase no fundo. Rússia e China enfrentam desafios demográficos. A China está envelhecendo. E a Rússia, desaparecendo. Mas eles podem ser considerados um bloco? Seus sistemas econômicos, sociais e políticos diferem consideravelmente; a economia brasileira se apoia na agricultura; a da Índia, nos serviços; a da Rússia, em recursos energéticos; e a da China, na fabricação para exportação. O que compartilham? Crescimento potencial. E um desejo de limitar o poder do dólar americano. No G-20, em Londres, eles promoveram sua própria agenda, pedindo novas regras financeiras internacionais, reforma do FMI e do Banco Mundial, e a ressurreição da Rodada Doha. No geral, eles estão propondo uma ordem econômica multipolar, menos dominada pelos Estados Unidos.Mas os Brics mal podem ser considerados um grupo coeso. Uma liderança sustentável requer um ambiente econômico sólido. Nesses âmbitos, os Brics ainda têm um longo caminho pela frente. Já é hora de retirar de cena o que não passa de uma sigla inventada por um banco de investimento. *John Frankenstein dá cursos sobre Ásia e economia no Brooklyn College/City University of New York

John Frankenstein*, YALE GLOBAL, O Estadao de S.Paulo

15 de agosto de 2009 | 00h00

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.