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O que esperar da economia argentina sob Fernández

A situação econômica da Argentina é explosiva, com inflação de 50,5%, queda no PIB de 2,5% e dívida pública de US$ 283 bilhões

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2019 | 19h00

O advogado Alberto Fernández, 60 anos, será empossado nesta terça-feira no cargo de presidente da Argentina, para o qual foi eleito no primeiro turno, em outubro.

A cadeira presidencial está assentada sobre uma bomba: a explosiva situação econômica do seu país, que agora enfrenta um queda do PIB de 2,5%, um rombo fiscal que deve pular para algo acima de 1,0% do PIB, uma inflação de 12 meses de 50,5% e, mais uma vez, uma dívida pública quase impagável, de US$ 283 bilhões.

Há os que enxergam em Fernández apenas o fiel e inseparável advogado da populista Cristina Kirchner, que o empurrara para cabeça da chapa por meio da qual também se elegeu, desta vez como vice-presidente. Outros preferem dizer que, apesar dos fortes laços que os unem, Fernández goza de certa independência e que saberá trilhar caminhos próprios.

Seu novo ministro da Fazenda, o economista Martín Guzmán, de 37 anos, confirmado no cargo nesta sexta-feira, não tem nenhuma experiência de governo. É um discípulo muito próximo do prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz, ferrenho crítico da ortodoxia que permeia a administração do Fundo Monetário Internacional (FMI). 

Nas suas primeiras manifestações, Fernández deixou claro que a dívida pública é insustentável se não for acompanhada de imediata renegociação e de retomada do crescimento econômico, que derrube o déficit que alimenta a dívida e, assim, garanta o pagamento aos credores.

No mesmo dia de sua posse, deve anunciar um plano econômico de emergência que prevê a distribuição de 100 bilhões de pesos (US$ 1,7 bilhão de dólares ao câmbio de hoje) que atenderão às necessidades imediatas de aposentados e assalariados de baixa renda. É o empurrão com que conta para aumento do consumo e da produção. Para que dê certo, alavanque a confiança e contenha a inflação, terá de convencer os argentinos de que será capaz de conter o déficit.

A atual administração Macri jura que o rombo deste ano não passa do 0,5% do PIB. Economistas ligados a Fernández advertem, no entanto, que as estatísticas oficiais escondem esqueletos e que o déficit deve estar entre 1,5% e 1,8% do PIB. A meta imposta pelo acordo com o FMI é de que não passe de 1,0%. Para enfrentar as novas despesas sociais, Fernández provavelmente anunciará aumento de impostos. 

Guzmán, que ocupará a principal pasta da Economia, é um teórico da administração de dívidas soberanas de alto risco. Não esconde que o passivo da Argentina caminha rapidamente para o insustentável.

Em declarações anteriores avisou que, por dois anos (2020 e 2021), será necessário suspender o pagamento dos juros da dívida tanto ao FMI, como, também, aos credores externos. Além disso, advertiu que será preciso renegociar os prazos de amortização para só retomá-los quando a economia estiver em recuperação.

Ou seja, se prevalecer o Plano Guzmán, a Argentina outra vez imporá perdas aos credores. Fica para ser demonstrado se o FMI aceitará renegociação nesses termos. Se não aceitar, os demais credores também devem refugá-los. E um calote de grandes proporções ficará inevitável.

Com variações, discursos e planos desse tipo se repetem desde os anos 90. Desde então, o único presidente que tentou algo diferente foi Mauricio Macri. Mas seu governo de ajustes relativamente suaves termina melancolicamente em desastre.

Provavelmente, Fernández pleiteará novas concessões comerciais do governo brasileiro. Bolsonaro tem feito as piores declarações a respeito de Fernández e do que ele significa como retomada do peronismo velho de guerra. E avisou que não vai à sua posse.

Há notícias de que integrantes do futuro governo procuram uma forma de reaproximação, algo baseado numa realpolitik regional, que se abstenha de razões ideológicas e se contenha apenas a objetivos pragmáticos.

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