O que esperar do segundo governo Dilma?

Economistas, cientistas políticos e videntes têm se esforçado para desvendar o rumo que tomará o 2.º governo da presidente Dilma Rousseff. É difícil de fazer qualquer previsão para o ambiente econômico, mas é certo afirmar que haverá um embate contínuo nas hostes governistas entre pragmáticos e ideológicos. Cada facção tentará fazer prevalecer a política econômica que julga mais adequada ao País, para superar uma herança complexa, qual seja a de baixíssimo crescimento, inflação crescente, desequilíbrio fiscal, preços represados de insumos, saldos negativos na balança comercial, superávit primário comprometido e baixo nível de investimento.

Josef Barat, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2014 | 02h03

Como consequência desse embate, é possível delinear três cenários. O primeiro seria o de predomínio de um novo neoliberalismo - certamente com um nome fantasia, pois neoliberal tornou-se uma espécie de insulto entre governistas. Tratar-se-ia da retomada de medidas e ações mais pragmáticas para restabelecer o equilíbrio por meio do retorno aos fundamentos macroeconômicos que vigoraram no governo FHC e em parte do governo Lula. Seria a adoção de uma política baseada no tripé subsequente ao Plano Real, de respeito às metas de inflação, adoção do câmbio flutuante e fixação de objetivos de superávit primário. A autonomia do Banco Central teria papel relevante, como gestor do cumprimento das metas de inflação.

O segundo cenário seria o de um novo nacional-desenvolvimentismo, com o predomínio de uma visão ideológica reciclada, apostando no aprofundamento dos fundamentos de uma economia apoiada, cada vez mais, no voluntarismo de um Estado intervencionista. Seriam resgatados antigos conceitos da liderança estatal em investimentos nas infraestruturas, na expansão do crédito, na concessão de benefícios fiscais a setores "estratégicos", etc. Seria algo como exumar os governos Vargas e Geisel, mas paradoxalmente com um Estado em situação falimentar, portanto com exígua margem para ampliar o investimento público.

O terceiro seria o cenário do meio-termo, que se poderia chamar de novo mais do mesmo, na verdade a "nova matriz econômica" reciclada. Pressupõe um acordo entre as facções, após exaustiva mediação de Lula, que imporá a mescla das duas tendências, algo de gosto bem brasileiro. Pragmáticos e ideológicos optariam por um compromisso em que seriam respeitados, com certa flexibilidade, os fundamentos baseados no tripé macroeconômico (com outro nome, é óbvio), mas se daria espaço ao voluntarismo do Estado, deixando-o conduzir e estabelecer compromissos nos setores "estratégicos" em que atuam empresas estatais ou privadas. Trata-se de um desenvolvimentismo, meio liberal, meio estatizante, de compadrio com os empresários de sempre e ações descoordenadas de política econômica.

Este último é o cenário mais provável, mas corre o sério risco de representar uma reprodução do 1.º governo Dilma, se não for reconhecido o que nele deu errado: o "câmbio de equilíbrio", a redução voluntariosa dos juros, a queda na taxa de investimento e a contínua perda de competitividade da indústria. O problema é que o 2.º governo terá de atuar em condições bem mais adversas, com desdobramentos que ampliam consideravelmente o grau de incerteza. O enigma a ser decifrado é como baixar o nível da inflação sem nenhum artificialismo e restabelecer uma taxa decente de crescimento. Com o fim do ciclo de crescimento baseado no consumo e expansão do crédito, como aumentar o nível de investimento e torná-lo o motor do futuro crescimento? Um dos problemas mais sérios neste cenário é, dada a incapacidade do Estado de investir, como conseguir atrair o investimento privado para significativos empreendimentos em infraestrutura, se não for restabelecido um ambiente econômico de confiança, segurança jurídica e regras estáveis na regulação para investidores privados, nacionais e estrangeiros? Como diria Millôr, esperemos que o fracasso não lhes suba à cabeça...

*Josef Barat é economista, consultor de entidades públicas e privadas e coordenador do Núcleo de Estudos Urbanos da Associação Comercial de São Paulo 

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