Gary Cameron/Reuters
Gary Cameron/Reuters

O que esperar para o dólar em 2022? Especialistas respondem

Fraqueza da economia, juros mais altos nos EUA e eleições devem influenciar o preço da moeda estrangeira ao longo do ano

Silvana Rocha e Antônio Perez, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2021 | 10h00

O dólar acumulou alta de 7,46% este ano, fechando em R$ 5,57, e as projeções no mercado para 2022 são de muita volatilidade e de uma nova rodada de depreciação do real. Os analistas financeiros listam ao menos cinco fatores que devem pesar contra a moeda brasileira ao longo do ano que vem: fraqueza da economia, com possível retração do Produto Interno Bruto (PIB), inflação ainda elevada, ruídos provocados pelas eleições, o processo de alta de juros nos Estados Unidos e as incertezas sobre a evolução da pandemia. Em meio a isso, trabalham com uma faixa de oscilação bem ampla, que vai de R$ 5,20 a R$ 6,20.

O economista-chefe da JF Trust, Eduardo Velho, afirma que a demanda por dólar não deve ter tanto refresco em 2022, dadas as condições econômicas no mundo, de crescimento não tão elevado e inflação alta. E, no Brasil, a demanda para proteção tende a persistir, por causa do nível de juros e da inflação, além da incerteza econômica, fiscal e eleitoral. 

"A tendência da dívida pública é aumentar um pouco em 2022, por isso é difícil arrefecimento do dólar até pelo menos as eleições, em outubro", diz. 

Ele calcula que o preço médio do dólar deve ficar em R$ 5,50, acima da média de 2021, de R$ 5,38 (1º de janeiro a 15 de dezembro), que é superior à media de 2020, a R$ 5,15.

"É difícil pensar em grande queda da inflação só pelo efeito da atividade fraca, porque o câmbio está tendo um mini-choque, que tem a ver com fluxo negativo e a imprevisibilidade da política econômica e  das eleições", afirma Velho.

A economista-chefe da Armor Capital, Andrea Damico, estima queda de 0,02% do PIB brasileiro em 2022. Em contraposição, o PIB global deve avançar cerca de 4,5% no ano que vem, avalia. "Esse diferencial é bem relevante do ponto de vista do câmbio. Quem entrega crescimento tende a ter uma apreciação de sua moeda, porque vai fomentar a entrada de recursos. Só que o Brasil vai estar numa recessão", diz Damico, que projeta dólar em R$ 5,75 no fim de 2022 e com viés de alta.

Na mesma linha, o economista-chefe da Western Asset, Adauto Lima, ressalta que a percepção sobre a capacidade de crescimento da economia brasileira é cada vez menor. E isso está ligado não apenas ao atual ciclo de alta de juros, que deve se estender pelo primeiro trimestre de 2022, mas também a questões estruturais, como a política fiscal. "O quadro de crescimento do Brasil em relação ao resto do mundo voltou a ser negativo. Isso é um fator importante para a taxa de câmbio", afirma.

Desconfiança das contas públicas

Além de não crescer, o Brasil não inspira confiança do ponto de vista fiscal, avalia Lima. Apesar da redução da relação dívida líquida/PIB neste ano, ele afirma que a percepção é de deterioração da gestão das contas públicas - ainda mais diante das incertezas provocadas pelas eleições presidenciais.

Para Damico, da Armor, os dois líderes nas intenções de voto - o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva - são populistas, "de direita e da esquerda", e não parecem "tão preocupados" com a manutenção de regras fiscais que garantam o equilíbrio das contas públicas. 

"Ninguém sabe qual vai ser a política econômica do próximo governo. Essa indefinição tende a desestimular o fluxo de capitais", afirma Damico, acrescentando que as chances de vitória de um candidato da chamada terceira via, em tese mais palatável ao mercado, são hoje bem reduzidas.

O estrategista Jefferson Laatus, do grupo Laatus, calcula que a movimentação política e pesquisas eleitorais devem começar a mexer mais com o dólar quando forem definidas as candidaturas e delineados os programas econômicos dos candidatos à Presidência, por volta de abril.

"Deve ser como em 2014", afirma o estrategista, lembrando que o dólar começou aquele ano entre R$ 2,30 e R$ 2,40 e terminou perto de R$ 4,20 e R$4,30, refletindo o estresse eleitoral e a reeleição da presidente Dilma Roussef

"O Banco Central despejou dólar via contratos de swap cambial (com efeito de venda no mercado futuro) à época para conter a volatilidade e, até hoje, ainda realiza leilões de rolagem de swaps negociados em 2014", recorda.

Atratividade baixa

Além dos problemas domésticos, se soma um ambiente externo mais desafiador para os países emergentes, por conta do processo de normalização das políticas monetárias nos países desenvolvidos. Por isso, não se espera melhora do fluxo de capitais para o País. 

"Não é o juro alto no Brasil que vai chamar o investidor estrangeiro para a renda fixa e a Bolsa, com a atividade fraca e imprevisibilidade política", afirma Laatus. "Quem tinha que vir já veio", aposta. 

Para Velho, da JF Trust, mesmo com a taxa Selic podendo chegar perto de 12% em março, a atratividade pelo Brasil pode ser baixa no próximo ano.

O Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos Estados Unidos) já anunciou que deve encerrar o seu programa mensal de compra de ativos em março e acenou, por meio das projeções de seus dirigentes, com ao menos três elevações de taxa de juros - hoje na faixa entre 0% e 0,25%.

Do outro lado do Atlântico, o Banco Central Europeu (BCE) anunciou o começo da redução de seu programa de estímulos monetários, que deve se encerrar também em março. Já o Banco da Inglaterra (BoE) elevou a taxa de juros, de 0,10% para 0,25%, a primeira alta desde março de 2020.

A economista-chefe da Armor Capital prevê que devemos ver alguma migração de recursos para os Estados Unidos, "o que vai gerar depreciação de moedas de países emergentes e de ativos de risco em geral". 

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