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O que está em jogo na equipe econômica

Comandado por Levy e Barbosa, ajuste é mais difícil do que muitos anteciparam e não é algo que se complete rapidamente

Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

02 Setembro 2015 | 02h02

Os conflitos que vêm sendo reportados na imprensa entre o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, antecipam um cenário que foi previsto por muitos analistas. A projeção era de que Levy, de perfil ortodoxo, comandaria o ajuste necessário para recolocar a economia nos trilhos. Quando essa tarefa estivesse concluída, ou próxima disso, haveria a tentação de "esquentar" a economia mirando as eleições de 2018. Para diversos observadores, Barbosa teria perfil mais condizente com essa segunda etapa.

Essa visão simplista ignorava sinais de que a realidade era mais complexa. Para começar, o ajuste é mais difícil do que muitos anteciparam, e não é algo que se esgote ou se complete em um par de anos. Em segundo lugar, Barbosa não professa o gênero de keynesianismo simplista que julga que basta injetar demanda na economia para que todos os problemas do País se resolvam. No seu período fora do governo, ele teve uma interação intensa com economistas mais ortodoxos, onde não só defendia como mostrava conhecer em grande detalhe a agenda fiscal de longo prazo.

Os aparentes atritos na equipe econômica, portanto, começam não na fase do pós-ajuste, mas sim como consequência do fracasso da tentativa inicial de ajuste. Os problemas são menos consequência de visões ideológicas diametralmente opostas de Levy e Barbosa do que derivadas de divergências de estilo e de formas de lidar com uma situação crítica quando quase tudo que se tentou deu errado. Neste segundo item, importam as diferentes formações de Levy e Barbosa, mas o conflito entre ortodoxia e heterodoxia se dá de forma mais sutil e complexa.

A discussão é sobre o que fazer, uma vez constatado que o plano de voo acordado entre os dois ministros no fim de 2014 deu com os burros n'água. Trata-se, neste momento, mais de um debate sobre limitação de danos do que sobre a orientação fundamental da política econômica, ainda que existam também divergências sobre isso.

Barbosa sempre indicou que o grande ajuste da economia brasileira, que considera inevitável, teria de ter algum grau de gradualismo. A essência do problema aqui é menos a busca do ótimo e mais a tentativa de identificar o que é possível. Ligado ao PT, sempre teve um aguçado componente político vinculado à sua capacitação técnica. Os sucessivos recuos que a posição de máximo rigor fiscal vem sofrendo - redução de metas fiscais, proposta e imediata desistência da CPMF, Orçamento com déficit - são na verdade reações à conjuntura política desfavorável.

Já a postura de Levy parece ecoar a visão de muitos no mercado de que "o melhor que se pode fazer" provavelmente é insuficiente para tirar a economia de uma zona de risco, que pode criar dinâmicas que não só são desastrosas no curto prazo, mas comprometem uma retomada de médio e longo prazos. Nesse sentido, é preciso "tentar o impossível", esticar ao máximo a corda das tensões entre Executivo e Congresso, para alarmar os parlamentares até o ponto em que estes ajam para evitar o pior. Nessa abordagem, o gradualismo é uma ilusão e não vai funcionar. Só os desdobramentos da atual crise neste e nos próximos anos indicarão qual dos ministros aproximou-se mais da realidade dos fatos.

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