O que está havendo com o 'B' do Bric

E por falar em cair em desgraça! Parece que foi ontem que muitos se atropelavam para salientar o visível sucesso do Brasil, com alguns ousando dizer que o País alcançaria níveis de crescimento padrão China. Foram dias inebriantes em 2010. Hoje, contra o pano de fundo dos muitos desafios mundiais, o consenso agora fala de um crescimento real do PIB pouco acima de 2,0% em 2012, o que, vindo após os 2,7% de 2011, põe o Brasil numa categoria diferente. Algumas pessoas chegaram a me perguntar se o "B" do Bric é seguro, quase voltando aos primeiros dias de 2001 e 2003, quando as pessoas não acreditavam que "B" pertencesse a circunstâncias tão altaneiras. Circulam também algumas especulações de que o Brasil poderia crescer menos do que os Estados Unidos neste ano, contribuindo para uma sensação de que a história de crescimento brasileiro ou foi exagerada ou está agora fadada a uma considerável decepção.

Jim Oneill, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2012 | 03h09

Permitam-me dar um passo atrás antes de me concentrar nos desafios futuros do Brasil. Na época em que criei a sigla Bric, muitos não haviam percebido as prováveis ramificações positivas das mudanças políticas que precederam a chegada de Lula ao governo e a combinação de uma política fiscal muito melhorada com uma inflação, para os padrões brasileiros, baixa e estável, que permitiriam que o Brasil entrasse num novo clima de estabilidade.

Como eu costumava dizer aos que questionavam o "B" do Brasil, o principal objetivo que o País precisava alcançar era evitar a crise. Muitos achavam que eu estava brincando, mas de uma maneira considerável, foi essa a essência da última década do Brasil. O País não precisou crescer números espetaculares e, ao menos em termos reais, não o fez. A ascensão do Brasil na década de 2000 para superar a Itália e, provavelmente, de maneira temporária, a Grã-Bretanha para se tornar a 6.ª maior economia do mundo em 2011, não decorreu de uma taxa de crescimento do PIB real particularmente forte, mas foi muito influenciada pelo notável fortalecimento do real ante o dólar. No entanto, na medida em que o real permanecia forte, muitos investidores ignoraram os desafios que viriam com isso, e optaram por acreditar que o Brasil poderia surpreender.

O Brasil em 2011 foi o queridinho do Bric, uma posição completamente diferente da que desfrutava 10 anos antes. Em consequência dessas expectativas aumentadas, o Brasil tem hoje mais dificuldade de atender de fato à essas expectativas.

As circunstâncias externas que o Brasil enfrenta precisam ser reconhecidas também. Além da impactante crise na zona do euro - que está engolindo cada vez mais a Espanha -, os números da economia americana continuam medíocres e, claro, existe uma desaceleração na China. As pessoas que estavam acostumadas à sede de commodities da China na última década estão tentando perceber a diferença entre uma China que, embora crescendo a uma taxa mais lenta que na década anterior e se concentrando em qualidade, é mais sustentável do que a que crescia a 10% e estava comprando commodities de quase toda parte.

Como eu também adverti com frequência, não se poderia realmente descrever o grau de mudança do Brasil até experimentarmos um período de preços das commodities mais moderados. Embora houvéssemos testemunhado isso em 2009, após os primeiros efeitos da crise do crédito de 2008, a experiência foi muito breve. Em 2012, com a China se centrando cada vez mais em qualidade e menos em quantidade, talvez estejamos entrando num período de testes mais significativos. Seja como for, isso é um lembrete a países como o Brasil de que fatores externos nem sempre são benignos, e que o destino do Brasil está, em última instância, em suas mãos.

Olhemos agora mais de perto o desempenho do crescimento brasileiro em sua existência como Bric, isto é, de 2001 para cá. Em 2011, o Brasil desapontou com um crescimento de "meros" 2,7%. De 2001 a 2010, o Brasil cresceu numa média em torno de 3,7%, nada espetacular. Como mencionei anteriormente, o País cresceu mais espetacularmente em termos de dólares, mas isso por causa da valorização do real. Durante essa década de crescimento médio de 3,7%, houve três anos de uma decepção bastante notável: 2,7% em 2001; 1,1% em 2002; 1,1% em 2003; e, como se sabe, em 2009, o PIB real encolheu cerca de 0,3%. Contra esse quadro, houve quatro anos de crescimento acima de 5,0%, destacando-se 2010, com 7,5%.

O que tudo isso me diz é que o crescimento brasileiro gira em torno da tendência do momento e, por isso, assim como ele foi muito decepcionante em 2001 e 2002, mesmo que o PIB real cresça "apenas" 2% no corrente ano após o decepcionantes 2,7% de 2011, isso não significa que esta seja a nova tendência. E, para os mercados brasileiros, se esses desenvolvimentos resultarem em expectativas mais realistas, isso não é uma coisa ruim.

Dito isso, nós supusemos - em contraste com os outros três países do Bric - que o crescimento desta década se aceleraria para cerca de 4,5% a 5,0%, de modo que o Brasil precisará de ainda mais anos de crescimento acima de 5,0% para isso ser satisfeito. Ainda não tenho bases reais para mudar nossos pressupostos sobre o crescimento para a década.

O Brasil está numa posição razoavelmente boa em medidas comparáveis de crescimento sustentável e produtividade em relação aos outros países do Bric, embora esteja, como os outros, bem abaixo do melhor da classe no mundo desenvolvido. No Índice de Condições de Crescimento (GES, na sigla em inglês) do Goldman Sachs, o Brasil figura com 5,4 em 10, o que o reúne no alto à China entre os países do Bric, mas bem atrás dos 7,7 da Coreia do Sul. Como já sugeri algumas vezes este ano, o Brasil faria bem em enviar uma delegação para visitar a Coreia e descobrir o que eles conseguiram aprender, e talvez imitá-la.

Em termos de alguns desafios, eu vejo alguns bons sinais. O real perdeu sua devoção obsessiva aos mercados cambiais e, apesar de ainda estar provavelmente forte demais para ajudar a indústria brasileira, ele claramente não é um problema tão grande como foi nos últimos anos.

E, quanto a isso, eu admiro as medidas agressivas do Banco Central para baixar as taxas de juros, o que poderá permitir um ambiente mais favorável ao investimento privado, além de ajudar no desafio da moeda.

O Brasil decepcionou claramente as pessoas nos últimos trimestres, mas tal como a noite segue o dia, assim que os investidores mudarem suas expectativas, eles ficarão surpresos. Sem querer diminuir o desafio que o Brasil precisa superar para atingir a média de 4,5% a 5,0% que supusemos para 2011-2020, uma comparação direta com os dois primeiros anos da década passada indica um forte começo para esta! Com a Copa do Mundo em 2014 e a próxima Olimpíada em 2016, o Brasil ainda vai ficar muito tempo na berlinda. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK   

PRESIDENTE DA GESTORA DE RECURSOS DO GOLDMAN SACHS, CRIADOR DO TERMO BRIC. ESCREVE A CADA DOIS MESES PARA O 'ESTADO'

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