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O que houve com o PIB?

A sensação é de que há dívida demais para pouco dinheiro entrando

Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2016 | 05h00

O PIB brasileiro está assustando os especialistas. A economia caiu barbaramente em 2015 e 2016, devendo acumular uma queda de quase 7,5% nestes dois anos. Vários analistas apostaram que a recuperação começaria no terceiro trimestre de 2016, e que em 2017 o crescimento poderia chegar a até 2%. Mas a queda de 0,8% entre o terceiro e o segundo trimestres de 2016, divulgada nessa quarta-feira, foi o jato definitivo de água fria. Agora, as projeções para 2017 se aproximam de 0,5% e há algum risco de caminharem para perto de zero.

Normalmente, é de se esperar que, após um mergulho tão profundo quanto o de 2015 e 2016, o PIB se recupere com relativa velocidade. As fábricas têm grande capacidade ociosa e sobra força de trabalho para reativar a produção. É claro que antes é preciso estancar a queda livre, porque os recursos produtivos ociosos só serão utilizados se houver demanda. No caso do Brasil, porém, parecia que essa etapa estava vencida com a razoável recuperação da confiança e da credibilidade da política econômica promovida por Henrique Meirelles, o ministro da Fazenda, e sua competente equipe.

O novo time conseguiu tirar a economia do ataque de pânico do final de 2015 e início de 2016, como se nota, do início do ano até agora, em termômetros como o risco Brasil, a bolsa, a cotação do dólar e os juros longos. Com a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, esses indicadores pioraram sensivelmente, mas ainda estão melhores do que na virada do ano. Além disso, a eleição de Trump foi uma surpresa ocorrida há menos de um mês, que não poderia explicar o mau desempenho da economia brasileira no terceiro trimestre.

Os analistas agora coçam a cabeça enquanto tentam entender por que a economia brasileira não dá sinais de vida. Uma possível explicação é que a recuperação da confiança foi para inglês ver e não convenceu empresários e investidores na produção, mais cautelosos que seus colegas do mercado financeiro. Assim, a PEC do limite de gastos públicos, que já andou três quartos do seu caminho no Congresso, por si só não corta nenhum gasto. E a megadelação da Odebrecht pode devastar o esquema político do governo Temer e deixar órfã a equipe econômica.

Na verdade, porém, é difícil achar que tudo se trata de um problema de confiança. Os índices de confiança se recuperaram desde o início do ano, movimento que só arrefeceu mais recentemente, quando ficou claro que a economia não veio atrás. A peça que falta no quebra-cabeça, e que vem sendo crescentemente discutida dentro e fora do governo, é o excesso de endividamento das famílias e, principalmente, das empresas. Esta é uma situação relativamente bem conhecida: recessões que ocorrem após bolhas de crédito costumam ser mais longas, e sair delas é mais difícil, lento e penoso.

Talvez seja exagero caracterizar o crescimento do crédito no Brasil antes da atual crise como bolha, quando se compara com o nível astronômico do mesmo fenômeno em diversos outros países. O problema é que, com a forte queda da renda das famílias e dos lucros das empresas no Brasil, a sensação é de que há dívida demais para pouco dinheiro entrando. E aí todos tentam economizar ao mesmo tempo para melhorar sua posição financeira, derrubando a demanda da economia.

O grande trunfo do Brasil neste momento, ironicamente, é a elevadíssima taxa de juros, que provavelmente o Banco Central deve cortar velozmente em 2017, já que a inflação parece ter entrado nos eixos. É mais fácil botar a casa financeira em ordem com juros menores. Por outro lado, a experiência internacional mostra que apenas juros baixos não resolvem o problema de economias que estancaram por excesso de endividamento privado. Sair desta armadilha é um processo lento, que exige paciência – uma virtude que não está em oferta abundante neste momento tenso da história nacional.

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