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Luiz Carlos Trabuco Cappi
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O que 'Meu Pai' nos ensina

Os direcionamentos de uma agenda positiva estimulam os períodos de pós-crise

Luiz Carlos Trabuco Cappi, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2021 | 04h00

A pandemia impôs às empresas o desafio fundamental de preservar vidas, com distanciamento social de funcionários e clientes. A expectativa é de ampliação da vacinação a partir de julho, o que faz surgir como cenário a perspectiva de uma retomada da economia e o retorno gradual do trabalho presencial.

Será fundamental para as empresas, agora, uma atitude de acolhimento das pessoas. O período de distanciamento mudou o processo de convivência social em todas as dimensões, o que implicou novas escolhas ou falta delas, e a redefinição dos propósitos de vida.

Revi o filme Meu Pai, obra vencedora do Oscar 2021 nas categorias de ator principal e roteiro. Seu enredo é boa referência para este momento de esperança, pois mostra de forma pungente a importância de não se negligenciar a saúde da mente. A cena final é emblemática. O protagonista vivido por Anthony Hopkins cai aos prantos tentando elaborar a realidade que o cerca. Visivelmente atordoado pela evolução do Alzheimer e abraçado à enfermeira, o personagem se sensibiliza: “Sinto como se estivesse perdendo todas as minhas folhas. Não sei mais o que está acontecendo”.

Nesta cena, a obra nos permite refletir sobre a tempestade de aflições e humores que tomou conta da sociedade durante a pandemia, e sobre a importância da sanidade mental como pilar para o bem-estar no trabalho, na família e no relacionamento social. A nossa identidade, ou seja, tudo que somos como indivíduos e trabalhadores, depende do bom funcionamento do cérebro.

Aos que ainda não tiveram a oportunidade de assistir a Meu Pai, a trama retrata a vida de um homem em fase de demência, um conjunto de sintomas relacionados ao declínio progressivo de competências funcionais e humanas. Embora comumente associados ao envelhecimento, os distúrbios mentais, mesmo aqueles leves como a ansiedade e a depressão, podem se manifestar e serem desencadeados em qualquer etapa da vida, muitas vezes tendo como estopim momentos de forte pressão e estresse. E a pandemia, sem dúvida, nos impôs o maior desafio deste século.

Pesquisa recente da Fundação Dom Cabral e do Talenses Group sugere que a disseminação da covid-19 prejudicou a saúde mental de 73,8% dos profissionais de nível executivo e Conselhos de Administração das grandes corporações. Esse dado torna premente um amplo trabalho em prol da saúde mental de colaboradores e lideranças por parte das organizações.

Entre jovens em idade escolar e universitários, a sensação de incerteza em relação ao futuro tem sido assustadora. Dentro dos lares, milhões de crianças sentem na família o medo da doença, a perda de renda, a escalada dos conflitos conjugais entre pais, a pobreza e a fome nos casos mais extremos. São jovens cujas habilidades socioemocionais (perseverança, resiliência, persistência) e cognitivas (raciocínio, memória) ainda estão em franco desenvolvimento.

O comprometimento do desenvolvimento desta geração poderá ter impactos severos à frente, fazendo os jovens encontrarem mais dificuldades de aprendizado e de ingresso no mercado de trabalho. O que afetará ainda mais a produtividade do País, questão sobre a qual governos e empresas terão imensa responsabilidade em dedicar atenção especial.

A boa notícia é que a humanidade sempre encontrou boas maneiras de reconstruir seu tecido social nos pós-guerras e epidemias. Devemos trabalhar, portanto, para que o otimismo com a aceleração da vacinação em massa contamine empresas, trabalhadores e clientes pela vontade de empreender, tomar riscos, gerar empregos e oportunidades para todos.

A história demonstra que os direcionamentos de uma agenda positiva estimulam os períodos de pós-crise.

Haverá novos desafios à frente? Sim, muitos. Mas é como diz Hopkins ao final da película: “Eu não tenho mais um lugar para aninhar a cabeça. Mas eu sei que o relógio está no meu pulso, isso eu sei. Marcando minha jornada.”

PRESIDENTE DO CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO DO BRADESCO. ESCREVE A CADA DUAS SEMANAS

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