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O que o brasileiro quer?

O recém-iniciado governo de Michel Temer já deu mostras claras da sua estratégia de jogo. O presidente em exercício reuniu um time em que, na área econômica, foram escaladas estrelas técnicas e, na área política, raposas e representantes tradicionais dessa atividade no Brasil, com todos os seus velhos vícios.

Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2016 | 05h00

À primeira vista, parece que o governo Temer montou um Ministério basicamente político, com uma pequena exceção na Fazenda (secundada por Planejamento e Banco Central), onde se concentram técnicos de alta qualidade. Mas não é bem assim. Na verdade, no Brasil de hoje, o ministro da Fazenda é quase um primeiro-ministro, e pode muito bem dar a tônica de um governo, especialmente se for talentoso para tanto. Meirelles, com uma personalidade pública forte, que sabe preencher espaços, tem tudo para exercer esse papel no novo governo.

Assim, entendido o equilíbrio entre o econômico e o político no governo, fica mais clara a aposta de Temer. De um lado, a formulação de uma política econômica por técnicos de orientação liberal e ortodoxa que, de acordo com os próprios pares, estão entre os melhores do País. Do outro, um time de políticos experimentados em todos os tipos de jogo do Congresso – tanto os que servem ao programa de governo como aqueles em causa própria –, cuja missão é fazer com que o máximo das duras medidas de austeridade da equipe econômica seja aprovado no Legislativo.

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Será que esse personagem, o povo, vai apoiar ou rejeitar as reformas econômicas?
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É um plano que faz sentido, uma vez que é muito difícil imaginar qualquer outra estratégia que retenha mínimas chances de sucesso na atual conjuntura política e econômica nacional.

Se Temer montasse um gabinete de ilustres especialistas em cada pasta, e as propostas da área econômica viessem a ser destroçadas pelo baixo clero, enfurecido por ter ficado fora do Ministério, o barco do governo, provavelmente, iria a pique com todos os luminares que oportunisticamente não tivessem saltado fora antes.

Além disso, o próprio presidente em exercício é um exemplar típico do político brasileiro tradicional que pulula em seu Ministério. Temer, portanto, nada mais está fazendo do que jogar o jogo que conhece, com os jogadores que conhece.

Mesmo que faça sentido, entretanto, nada garante que a estratégia vai dar certo. Muito já se falou e escreveu sobre os riscos: a piora do instável cenário econômico externo, avanços da Lava Jato num Ministério nada invulnerável aos homens da lei, a deplorável influência de Eduardo Cunha manifestada na escolha de André Moura (PSC-SE) como líder do governo na Câmara e a possibilidade de derrotas de medidas politicamente difíceis no Congresso – diante da pressão de grupos organizados tanto contra cortes de gastos como contra aumento de impostos.

Mas talvez a variável mais importante para determinar o sucesso ou o fracasso de Temer seja aquela que vem sendo a mais difícil de interpretar por intelectuais e especialistas: a vontade do povo brasileiro. Desde 2013, esse personagem já saiu às ruas para exigir serviços públicos melhores e mais baratos, enfureceu-se com a corrupção, demonstrou grande rejeição ao sistema político como um todo e dividiu-se entre uma grande maioria e uma relevante minoria para, respectivamente, pedir a saída de Dilma ou defender a sua permanência.

Será que esse personagem, o povo brasileiro, vai majoritariamente apoiar ou rejeitar o plano de grandes reformas econômicas – duras a princípio, mas que devem abrir novos horizontes de crescimento – tocadas pelos mesmos personagens de sempre da política? O eleitorado não votou nesse projeto, mas dada a calamitosa crise atual, não é impensável que o apoie ou pelo menos o tolere. Também não é impensável que o rejeite. Essa é a grande interrogação que até agora ninguém conseguiu responder satisfatoriamente.

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