O que os livros dirão sobre a Europa em 2012

Os livros de História dirão aos nossos netos que a zona do euro chegou muito perto da desintegração em julho de 2012, e que somente a ação audaciosa do Banco Central Europeu (BCE) interrompeu a ação das forças desordenadas que estavam persistentemente avançando. Tenho bastante certeza a respeito dessa previsão. Mas estou menos seguro sobre a possibilidade de os livros também lhes dizerem que julho foi o mês no qual a crise da dívida da zona do euro passou por uma virada decisiva para melhor.

É O PRINCIPAL EXECUTIVO DA PIMCO, ESCREVE A CADA DOIS MESES COM EXCLUSIVIDADE PARA O ESTADO. , O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2012 | 02h10

Na manhã de 26 de julho, grande parte da zona do euro encontrava-se num turbilhão financeiro. O capital privado estava fugindo de maneira rápida e acelerada das economias vulneráveis. Os custos dos empréstimos explodiam, incluindo taxas acima de 7% dos títulos emitidos pelos governos da Itália e da Espanha. E os depositantes começavam a sacar dinheiro dos bancos locais, fazendo com que os balanços dessas instituições encolhessem de forma desordenada.

Essa era a dinâmica que pouco antes havia obrigado três economias da zona do euro - Grécia, Irlanda e Portugal - a pedir formalmente pacotes de ajude com base em acordos com o Fundo Monetário Internacional (FMI). E com essas economias ainda sob os cuidados do Estado europeu, a percepção geral era de que Itália e Espanha acabariam com o que restava da disposição da zona do euro e do FMI para estender pacotes de saneamento financeiro, e mesmo de sua capacidade para fazê-lo.

A preocupação em relação à zona do euro não se limitava à periferia. O centro também se encontrava numa situação instável.

Numa eleição presidencial duramente disputada, os cidadãos franceses rejeitaram Nicolas Sarkozy em favor de François Hollande. Eles fizeram isso apesar das advertências de que essa mudança comprometeria a gestão franco-alemã da zona do euro. De fato, a chanceler alemã, Angela Merkel, chegou ao ponto de fazer abertamente campanha em favor de Sarkozy. Agora, ela tinha de encontrar uma maneira de cooperar com Hollande a fim de conter uma crise da dívida cada vez maior.

Com tudo isso acontecendo, era apenas uma questão de tempo para que os deslocamentos financeiros cada vez mais rápidos acabassem empurrando um país europeu após o outro para a recessão, com o desemprego crescendo a níveis ainda mais alarmantes e - em alguns países - os jovens tomando as ruas para protestar. Nestas circunstâncias, os governantes provavelmente seriam empurrados na direção de modificar fundamentalmente a composição e o funcionamento da zona do euro. Aliás, uma pergunta relevante seria se os cidadãos lhes concederiam tempo suficiente para fazê-lo de forma ordenada.

Virtualmente nenhum país do mundo, incluindo o Brasil, ficaria imune aos ventos de desordem que soprariam da Europa naquelas circunstâncias. A maior parte deles veria queda da taxa de crescimento, aumento do desemprego, redução do acesso ao crédito externo, e dúvidas surgiriam sobre o funcionamento do sistema monetário internacional.

O BCE, sob a direção ousada e imaginativa de Mario Draghi, funcionou como o interruptor de circuito dessa dinâmica extremamente perturbadora que atuava nos níveis nacionais, regionais e globais. E o fez em três passos rápidos.

Primeiramente, no dia 26 de julho, Draghi aproveitou-se de uma aparição pública rotineira, em Londres, para fazer comentários importantes e históricos. Depois de uma descrição da zona do euro que capturou a atenção da plateia, e que incluiu traçar um paralelo inusitado com um mangangá (tipo de abelha que parece um besouro), Draghi assegurou ao mundo todo que "o BCE está pronto a fazer tudo o que for necessário para preservar o euro". E para que não restassem dúvidas quanto ao compromisso da instituição, acrescentou: "E, acreditem em mim, isso será suficiente".

Os mercados reagiram imediatamente às declarações assertivas por parte de uma instituição dotada de enorme poder de fogo financeiro. As taxas de empréstimos inverteram o rumo e começaram a cair. A fuga dos depósitos e dos capitais desacelerou. E o discurso de influentes analistas céticos abandonou os comentários sobre o inevitável colapso da zona do euro para indagações sobre como o BCE traduziria palavras em ações.

Isso foi respondido pelos dois passos subsequentes.

Nos dias 2 de agosto e 6 de setembro, o conselho diretor do BCE especificou as modalidades da sua potencial intervenção nos mercados. Crucialmente, a instituição comprometeu-se com compras ilimitadas de certos títulos italianos e espanhóis, desde que esses países aderissem a condicionalidades leves de política econômica.

Com essas garantias, as saídas de capital privado e de depósitos se reduziram e os custos de captação dos governos caíram pela metade, para níveis menos inconsistentes com a sustentabilidade de médio prazo da dívida. Com isso, o risco imediato de uma implosão da zona do euro retrocedeu.

Ainda assim, é muito cedo para anunciar o fim da crise da dívida na Europa - não porque nós deveríamos questionar o compromisso do BCE, mas sim porque a instituição não dispõe dos instrumentos políticos para superar os problemas subjacentes da zona do euro.

Não tenhamos dúvidas. O balanço do BCE pode comprar tempo para a zona do euro - embora a um custo para a credibilidade e a efetividade no longo prazo desta instituição-chave. Mas será que esse tempo será usado de forma produtiva? E, especificamente, será que os governos europeus adotarão as medidas necessárias para superar três problemas básicos: crescimento econômico pequeno demais, endividamento excessivo nos lugares errados, e integração política regional insuficiente?

Para fazê-lo, os governos europeus precisam simultaneamente embarcar em reformas estruturais que estimulem o crescimento, encontrar uma maneira de mutualizar a dívida compatível com os incentivos corretos, e fazer tudo isso ao mesmo tempo em que cumprem os requerimentos da democracia nacional. E isso se traduz em listas significativas e complexas de tarefas, tanto no plano nacional quanto no regional.

O trauma da crise da dívida - e principalmente os dias de alta ansiedade do último verão do Hemisfério Norte - aumentou de forma maciça a consciência dos problemas por parte dos governos. Dessa forma, a maioria deles tem longas listas de tarefas; e alguns se engajaram seriamente na sua implementação. Mas a região ainda não se encontra num nível crítico de execução. E alguns países, como Itália e Espanha, enfrentam o risco de andar para trás por causa da instabilidade política - apenas observem como os spreads italianos reagiram na semana passada à repentina incerteza política.

A dramática intervenção do BCE em julho foi necessária para estabilizar a Europa. Os próximos meses vão revelar se foi também suficiente para superar a danosa crise da dívida da região. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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