O que pesa mais, inflação ou desemprego?

Nas campanhas eleitorais, inflação e desemprego são temas controvertidos. Os candidatos da situação procuram mostrar que os dias de hoje são melhores que os de ontem. Os da oposição fazem o inverso. Os dois problemas são sérios para a vida dos eleitores e de sua família. A inflação corrói o seu poder de compra e o desemprego faz as pessoas perderem o chão. O que pesa mais na determinação da insatisfação das pessoas?

José Pastore, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2014 | 02h04

Em estudo recente, Annabelle Krause, do Instituto para Estudos do Trabalho de Bonn (Alemanha), fez uma ampla resenha dos principais trabalhos sobre essa questão. As pesquisas resenhadas indicam que a inflação gera uma insegurança desagradável, pois a perda de poder de compra cria incertezas e remove a previsibilidade das pessoas. Muitas se endividam. Outras rebaixam o estilo de vida. Mesmo com o acionamento dos conhecidos mecanismos compensatórios de indexação, a inflação causa um inegável desassossego (ver Happiness and work, IZA Discussion Paper n.º 8.435, agosto de 2014).

No caso da desocupação, o principal mecanismo de compensação é o seguro-desemprego. Entretanto, mais que a inflação, o desemprego mexe com a dignidade e a autoestima das pessoas. Está comprovado haver uma relação negativa entre desemprego e saúde mental, e é claro que os efeitos não pecuniários são mais sérios do que os pecuniários. As pessoas que já amargaram a desocupação sabem o que isso significa. É um daqueles problemas de que ninguém se esquece. A ansiedade surge até mesmo na mera antecipação de uma onda de desemprego.

Os estudos indicam que o sentimento de insatisfação só é ligeiramente atenuado quando a desocupação na região onde a pessoa vive é alta ou quando o desempregado vê outros membros de sua roda de amigos ou conhecidos na mesma situação. Dentro de sua família, porém, o abatimento cresce em proporção geométrica em relação ao tempo que corre em progressão aritmética. Por ser uma norma social altamente valorizada, o emprego funciona como um importante determinante da autoestima. Na falta dele, a depressão é inevitável.

O Brasil de hoje mostra uma situação relativamente confortável nos dois aspectos. A inflação vem sendo parcialmente compensada por aumentos reais de salários e de benefícios. Os dados disponíveis indicam que cerca de 90% das categorias profissionais vêm obtendo reajustes salariais acima da inflação, o que atenua a perda de poder de compra.

Isso se relaciona com o quadro do emprego. A indexação com ganhos reais tem sido possível em vista do quadro de falta de mão de obra que ainda persiste em vários setores, apesar do enfraquecimento da geração de empregos. O encolhimento da população economicamente ativa é responsável por um encolhimento da oferta de trabalho, que se traduz por menos procura por emprego e baixa taxa de desemprego (5%).

Suspeito, porém, que esse céu de brigadeiro esteja com os dias contados. O governo a ser inaugurado em 2015 enfrentará o grave desafio de ajustar os preços até aqui contidos artificialmente: câmbio, eletricidade, tarifas urbanas, petróleo e derivados e outros. Mesmo que o ajuste seja gradual, há sério risco de a inflação subir ao longo do ano.

No campo do desemprego, apesar do encolhimento da força de trabalho acima apontado, a taxa de desemprego tenderá a subir com a perspectiva de redução mais acentuada da oferta de emprego, em decorrência da falta de investimentos registrada em 2014 e de problemas que ameaçam a produção em 2015, como é o caso do racionamento de energia elétrica (que pode atingir vários Estados) e da falta de água, que é quase certa no coração industrial do País: São Paulo.

Temo, assim, que 2015 venha a trazer a junção dos dois problemas, com os mencionados reflexos nos orçamentos familiares e na autoestima da população. Oxalá esteja errado.

*José Pastore é professor da Fea-USP, presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da Fecomércio-SP e membro da Academia Paulista de Letras 

Tudo o que sabemos sobre:
Inflaçãodesemprego

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.