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O que quer Collor na CPI?

É disputada a escolha dos senadores que vão compor a CPI da Petrobrás, mas o ex-presidente Fernando Collor garantiu sua vaga já no primeiro dia, indicado pelo partido que o abriga hoje, o PTB. A Petrobrás não é novidade na vida política de Collor. Em 1992 seu grupo de amigos foi flagrado montando um articulado esquema para interferir e controlar os negócios dessa estatal, comandados por seu tesoureiro de campanha, Paulo César Farias (PC Farias), e pelo então secretário de Assuntos Estratégicos, Pedro Paulo Leoni Ramos. Na época o PT era o partido mais aguerrido e agressivo em acusar Collor de corrupção e exigir sua expulsão do governo. Hoje o ex-presidente é aliado de Lula e tudo indica que, na CPI, atuará em defesa da atual gestão da Petrobrás. Mas vai que ele resolve se vingar?A Petrobrás é a maior empresa da América Latina, com negócios no País inteiro e um orçamento de R$ 174 bilhões para gastar em investimentos até 2013. Seus cargos de diretoria são cobiçados por todos os partidos políticos. Agora mesmo o PMDB se aproveita da CPI para barganhar com o governo Lula a diretoria de Exploração e Produção, que vai concentrar a maior parte dos investimentos no petróleo do pré-sal. No entra e sai da companhia circulam centenas de políticos, empresários, intermediários e picaretas dispostos a fechar negócios - lícitos e ilícitos.As fraudes praticadas pelo grupo de Collor na Petrobrás eram diferentes das acusações feitas à atual gestão pelos partidos de oposição. Elas começaram a ser reveladas ao País em 22 de março de 1992, quando o Estadão publicou a primeira de uma série de reportagens que fizeram nascer uma CPI no Senado e um inquérito na Polícia Federal. Dois meses depois, o irmão de Collor, Pedro Collor, contou em entrevista à revista Veja que PC Farias não passava de um testa de ferro do ex-presidente, a quem entregava 70% do que arrecadava em extorsões praticadas em nome do governo. Outra CPI foi criada e o resultado final foi o impeachment de Fernando Collor, no final de 1992. Aliás, de todas as comissões de inquérito criadas no Congresso, as duas sobre o governo Collor foram as únicas a produzir punição.Quando Collor assumiu, em março de 1990, o olho grande de seu grupo esbarrou no presidente da Petrobrás, o advogado Luis Octávio da Motta Veiga, que rejeitou os pedidos de PC Farias - entre eles um empréstimo-socorro ao falecido empresário Wagner Canhedo, dono da falida Vasp.Demitido Motta Veiga, o grupo partiu para montar um esquema que implicava aliciar funcionários da estatal, prometendo os céus a quem se deixasse adestrar e o inferno aos que se recusassem (hoje o aliciamento é feito pelos partidos políticos). Muitos aceitaram e foram promovidos, outros resolveram denunciar a armadilha à imprensa. Uma empresa situada num shopping na zona sul do Rio de Janeiro passou a intermediar as milionárias operações de exportação e importação para a Petrobrás. A empresa era desconhecida no mercado, mas o dono era amigo do ex-presidente e compadre de Pedro Paulo Leoni. PC Farias cobrou uma gorda comissão de uma empreiteira escolhida para executar uma obra na refinaria Landulpho Alves (na Bahia) e a empresa desconhecida realizou grande operação de compra de derivados de petróleo da Argentina com preço superfaturado. E assim seguia o grupo interferindo nos negócios da Petrobrás e com a cumplicidade de certos funcionários.Autora das matérias publicadas no jornal, fui convidada a depor na CPI. Viajei para Brasília com o propósito de ajudar, embora não soubesse como, já que todos os fatos que apurei eram conhecidos e estavam publicados no jornal. Cumpri meu dever, embora revoltada com perguntas agressivas e xingamentos vazios vindos de parlamentares da tropa de choque do ex-presidente.O inquérito da Polícia Federal e o processo na Justiça me valeram dois depoimentos e duas acareações: com Pedro Paulo Leoni e com o advogado João Alves, responsável pelo aliciamento de funcionários. Desconheço o desfecho do processo, mas nunca soube de punição a nenhum dos acusados.Fernando Collor de Melo, o primeiro senador a ocupar a cadeira de membro da CPI da Petrobrás, certamente não esqueceu os fatos que o levaram à condenação pública há 16 anos e à cassação de seus direitos políticos por oito anos. Não são fatos que o orgulhem lembrar-se em público. Mas entre os senadores há quem possa fazê-lo. Qual seria o sentido de sua participação nesta CPI? *Suely Caldas, jornalista, é professora de Comunicação da PUC-Rio E-mail: sucaldas@terra.com.br

Suely Caldas*, O Estadao de S.Paulo

23 de maio de 2009 | 00h00

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