Jonathan Ernst/REUTERS - 22/10/2020
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Celso Ming
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O que Trump prometeu e não entregou

Desfecho da eleição nos Estados Unidos parece indicar que não há saída para as crises de nossos dias senão com cooperação, diálogo, negociação e busca de saídas multilaterais

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2020 | 14h10

Uma das lições a serem aprendidas a partir do resultado das eleições presidenciais nos Estados Unidos é a de que são inviáveis propostas políticas para solução da atual crise baseadas no populismo nacionalista.

O presidente Donald Trump foi eleito em 2016 porque prometeu devolver o emprego e a renda para o cidadão da classe média e a prosperidade para os negócios das empresas dos Estados Unidos. Esse programa protecionista, desenhado em pranchetas carregadas de xenofobia, foi empacotado sob o rótulo do make America great again. 

A rejeição a Trump que se viu nos mapas eleitorais do chamado Cinturão da Ferrugem (do qual fazem parte os Estados de Michigan, Pensilvânia e Wisconsin) demonstra o desapontamento do eleitor médio com a administração Trump, que não entregou o que prometeu. 

O presidente preferiu culpar a China e os imigrantes cucarachos pelo sumiço dos empregos e pela redução de salários. E apontou a União Europeia como grande responsável pela destruição dos negócios ligados à energia convencional (indústrias do petróleo, do gás de xisto e automobilística). Mas os lances da guerra comercial, os ataques aos fluxos migratórios e o pouco-caso com as aflições das minorias nem recompuseram a renda do cidadão médio e a renda familiar desidratada pelo juro negativo, nem devolveram os postos de trabalho.

Os analistas políticos vêm avaliando quanto o desleixo para com a pandemia e o menosprezo darwiniano diante do sofrimento alheio não se tornaram fator de derrota do presidente Trump.

Independentemente disso, por trás do colapso eleitoral também há uma falha de diagnóstico.O presidente Trump não entendeu que a globalização, a incorporação de mais de 600 milhões ao mercado de trabalho e de consumo na Ásia (e não só na China), as migrações, a rápida disseminação da tecnologia de informação (altamente poupadora de mão de obra) e a incorporação da energia limpa na matriz energética global vêm produzindo profunda transformação na economia e na natureza do trabalho. E não soube como lidar com essa novidade.

De mais a mais, o eleitor copiou do próprio Trump a resposta que este deu ao amador fracassado: “Você está demitido!”. Foi o que Trump repetiu, com notória satisfação, por 10 anos, no programa de reality show conduzido por ele levado ao ar pela rede de TV NBC, chamado O Aprendiz. Os aprendizes eram sistematicamente despachados por ele com um sonoro You’re fired. Ironicamente, essa experiência não serviu para prepará-lo para a derrota eleitoral, para a situação em que ele próprio se tornaria um “loser”, um dos qualificativos que o americano médio mais teme.

O desfecho da eleição nos Estados Unidos parece indicar algo mais do que a simples rejeição ao populismo nacionalista. Parece indicar que não há saída para a crise econômica e social dos nossos dias senão a cooperação, o diálogo, a negociação e a busca de saídas multilaterais.

Isso sugere que a administração Biden deverá não só abandonar as decisões unilaterais que marcaram o governo Trump, mas também deverá retomar os contatos com a Organização Mundial do Comércio (OMC), a Organização Mundial da Saúde (OMS) e acatar as disposições do Acordo de Paris rejeitadas pelo governo Trump.

Falta saber se, no país agora profundamente rachado e altamente polarizado, o Congresso e, especialmente, o Senado conseguirão dar apoio aos programas de recuperação da atividade econômica, que poderão lembrar os investimentos promovidos pelo governo do presidente Roosevelt nos anos 1930, o New Deal, com o objetivo de buscar a retomada e a saída do labirinto. Parte importante desse programa tende a ser os incentivos para substituição da energia de fonte fóssil pela energia renovável. 

E o Brasil?

Se for confirmada essa guinada na condução da política econômica dos Estados Unidos, o governo Bolsonaro não poderá conduzir os interesses do Brasil com o espírito que prevaleceu até agora: o de aproveitar a confusão e a reclusão social da pandemia “para deixar passar a boiada”. 

Mas essa reacomodação de um governo também contaminado pelo populismo, se houver, ainda está envolta em enormes incertezas. Essas incertezas se misturam a outras duas: à maneira como o País sairá da pandemia e à maneira como tratará o rombo fiscal, o flagelo que ameaça engolir a política econômica e desorganizar a vida social.

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