Arnd Wiegmann/Reuters
Arnd Wiegmann/Reuters

O que une Bono, líder do U2, e o ex-secretário Henry Paulson?

A pedido do músico-ativista, ex-líder do Tesouro americano vai presidir fundo verde, com a expectativa de criar uma plataforma que incentive os investimentos climáticos

Andrew Ross Sorkin, The New York Times

07 de janeiro de 2021 | 05h00

No outono passado, o ex-secretário do Tesouro Henry M. Paulson Jr. recebeu um telefonema de Paul David Hewson, mais conhecido como Bono. O músico-ativista-investidor tinha uma ideia e “um pedido”: Bono, que ajudou a fundar os fundos Rise da TPG, os quais somam US $ 5 bilhões com foco em “investimento de impacto”, disse a Paulson que a firma de investimento queria criar uma plataforma ainda maior para focar exclusivamente no combate às mudanças climáticas – e ele queria que Paulson o administrasse.

Paulson, que passou os últimos 12 anos desde que deixou seu cargo no Tesouro longe do setor privado, administrando seu instituto sem fins lucrativos e trabalhando em iniciativas de mudança climática, rejeitou a proposta.

“Ele me disse: ‘Minha agenda está cheia’, contou Bono sobre o telefonema. “Achei que ele ficaria empolgado”, acrescentou Bono, mas os sócios de Paulson já o tinham avisado: “Não tem jeito”.

Esta semana, depois de meses de ligações e reuniões que se seguiram com Jon Winkelried, copresidente executivo da TPG – amigo de Paulson e ex-colega de Goldman Sachs – Paulson se tornará o presidente executivo de um novo fundo global, o TPG Rise Climate.

A mudança traz Paulson, 74 anos, de volta ao setor financeiro pela primeira vez desde que deixou o Goldman para assumir o cargo de secretário do Tesouro em 2006. E também pode sinalizar uma virada para uma postura de maior peso e seriedade para os investimentos relacionados ao clima. O cofundador da TPG, Jim Coulter, está planejando mudar boa parte de seu foco para o novo fundo climático.

“Meu plano não era esse”, disse Paulson em entrevista. Mas ele disse que foi persuadido pelo sucesso dos outros fundos Rise da TPG e pelo entendimento da empresa da escala assustadora que o investimento no clima exigirá. “Neste estágio da minha carreira, não estou procurando um recomeço. Estou com pressa para fazer a diferença”.

Paulson, junto com Coulter, planeja construir uma plataforma de investimento de base ampla para fazer investimentos climáticos que sejam tão lucrativos quanto qualquer outro tipo de investimento.

Muitos outros fundos climáticos têm uma postura filantrópica ou estão dispostos a aceitar retornos mais baixos, “mas o mercado não vai ganhar em escala com rendimentos de concessões ou subsídios”, disse ele.

Paulson, que pretende dedicar pelo menos 50% de seu tempo à sua nova função, planeja alavancar seus relacionamentos em todo o mundo para trabalhar com governos e indústrias para levantar dinheiro e encontrar investimentos.

“Hank já trabalhou na relação entre governos e empresas durante crises”, disse Coulter sobre Paulson, referindo-se ao seu papel no resgate do sistema econômico durante a crise financeira de 2008. “E acho fascinante que ele esteja dando um passo à frente para enfrentar mais um momento em que as empresas e os governos têm que se unir”.

Os retornos iniciais dos fundos Rise da TPG – US$ 2 bilhões dos quais são em investimentos relacionados ao clima – parecem sugerir que o investimento socialmente responsável pode ser tão lucrativo quanto outras abordagens. Coulter disse que, com a redução no custo da energia solar – comparado, por exemplo, ao custo de construção de uma nova usina de gás em alguns lugares dos Estados Unidos –, a oportunidade de fazer novos investimentos atraentes mudou. Ele disse que estava vendo oportunidades semelhantes em veículos elétricos e na rede de energia que os alimenta, bem como na agricultura e nos bens de consumo.

Nos mercados públicos, os investidores estão jogando dinheiro em empresas como a Tesla e outras que têm modelos positivos em termos ambientais, sociais e de governança. No entanto, não há um número suficiente de empresas focadas no clima prontas para abrir capital, disse Paulson: “Precisamos de mais oportunidades de investimento de alta qualidade com potencial para se tornarem empresas com ganhos em escala”.

Bono falou sobre sua nova parceria com Paulson: “Meu trabalho contra a pobreza global e depois na luta contra a AIDS me ensinou que não precisamos apenas dos parceiros usuais, precisamos de alguns parceiros incomuns e até mesmo de alguns parceiros inesperados na conversa”./ TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.