O que vem a seguir?

Nos EUA, como algumas vezes no Brasil, ética e moralidade são cada vez mais interpretadas de forma a permitir liberdade total para maximizar ganhos pessoais e não sociais

Albert Fishlow, O Estado de S.Paulo

17 Junho 2018 | 05h00

Nas últimas semanas, muita coisa aconteceu tanto no Brasil quanto nos EUA. No primeiro, tudo parece doméstico; no segundo, tudo internacional. O que há de comum a ambos são as próximas eleições. O Brasil é atormentado pela greve de caminhoneiros que ocorreu há duas semanas. Agora assentadas, as primeiras consequências aparecem no declínio dramático do crescimento projetado em 2018 na pesquisa Focus, do Banco Central. Esta declinou no último mês de 2,6% para 1,9%. No início do ano, muitos esperavam 3%.

Mas o resultado é ainda pior. A manutenção dos déficits fiscais por mandato constitucional – como sugeri meses atrás – fracassou. A disciplina fiscal deve vir, não por regras absolutas, especialmente em um ano eleitoral. Há muito tempo o problema brasileiro é a falta de capacidade do Congresso de agir efetivamente no controle de gastos. É por isso que as receitas acentuadamente mais elevadas ocorreram nas últimas décadas.

Como responderá um novo presidente a esse problema? A negociação ocorrerá dentro de um Congresso de múltiplos partidos. A reforma previdenciária e a redução do desperdício de recursos para Estados e municípios, embora mantendo os gastos sociais necessários para saúde, segurança, educação e saneamento, não será fácil.

Há uma única certeza: a população está comprometida com a continuidade dos esforços do Judiciário para punir a corrupção no passado e alterar as regras futuras. O Congresso e o Executivo não terão a opção de diluir as regras, como tentaram nos últimos anos.

Os EUA, em contraste, ameaçam destruir o sistema de comércio global que veio evoluindo nas últimas décadas. O aumento das tarifas é aplicado para defender os produtores nacionais. Acordos como o Nafta são descartados. A autoridade presidencial é baseada em preocupações de segurança nacional – com o Canadá e a UE – e ainda com a China. Trump quer um mundo mercantilista, onde o saldo comercial dos EUA seja positivo em todos os setores.

No processo, há necessidade de encerrar seu papel tradicional de líder econômico entre os países desenvolvidos. Essa é uma outra dimensão, prejudicial não apenas para aqueles, mas também para outras nações em desenvolvimento, que cada vez mais são fontes de suprimento. Isso faz parte de uma estratégia de fechamento consciente, complementada por redução de tropas e da assistência econômica no exterior.

Estratégia que aparece também na separação de filhos dos pais por causa da imigração ilegal. Um muro na fronteira sul, que deveria ser pago pelo México, é desejado para impedir a entrada de imigrantes ilegais, e até mesmo justificado por citações bíblicas. (O problema com a citação é a sua incapacidade de ir a Romanos 13.8, onde também está dito, “amar a outra pessoa é cumprir a lei”.) Os protestos vêm mesmo de partidários religiosos de Trump.

Mas o evento mais abordado foi o encontro entre Trump e Kim Jong-un, destinado a dar início à eliminação da energia nuclear da península coreana. O que chama a atenção é a aceitação despreocupada de Trump quanto à disposição de seu novo melhor amigo de eliminar todos os direitos humanos na Coreia do Norte. Trump estava mais interessado nos condomínios a serem construídos no futuro ao longo da costa; talvez ele tenha recebido o monopólio da terra para um clube de golfe também.

A expectativa de progresso rápido na mudança para o objetivo de desnuclearização completa e monitorada das Coreias é improvável. Kim venceu a primeira rodada. O problema, como no passado, é a eventual avaliação dos EUA de que o processo provavelmente será longo e tortuoso. A experiência da negociação do acordo com o Irã é informativa.

Os EUA vão realizar eleições em novembro para um terço do Senado e para toda a Câmara dos Representantes. À medida que a popularidade de Trump aumenta, esse evento se torna um teste crucial. A manutenção das maiorias republicanas, como ocorre hoje, causará mais danos no futuro. Já existem esforços para acabar com a aplicação obrigatória de cuidados de saúde para condições pré-existentes. Isso acompanha a redução dos gastos sociais, a extensão de medidas para que as cidades impeçam o recebimento de imigrantes ilegais, bem como a nova atração dos republicanos pelas virtudes de grandes déficits fiscais.

Aqui, como algumas vezes no Brasil, ética e moralidade são cada vez mais interpretadas de forma a permitir liberdade total para maximizar ganhos pessoais e não sociais. O objetivo real, no entanto, deveria ser o segundo. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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