O rali da Bolsa
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O rali da Bolsa

Embora tenha recuperado as perdas com a pandemia, a alta da Bolsa não é o resultado da recuperação total da economia

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2020 | 20h30

A Bolsa brasileira deixou para trás as perdas pesadas do período da pandemia e já mostra evolução positiva neste ano conturbado (veja o gráfico). Não é o resultado da recuperação total da economia, embora esta também possa estar a caminho.

As explicações para o rali estão ao alcance de qualquer um. E aqui vão as principais.  


Os juros abaixo da linha d’água são o grande empurrão. O investidor em fundos de renda fixa olha para o que tem de volta nos seus extratos bancários e coça a cabeça descorçoado com a corrosão em seu patrimônio. Verifica que esse estrago é produzido não só pelos juros mas, também, pelo Imposto de Renda e pelas tarifas de administração impostas pelos bancos, altas demais em comparação com o que obtém com juros. Depois, vê as curvas exuberantes do mercado de renda variável e sente que, perda por perda, se é que vai ter com as ações, vale a pena correr algum risco.

Mas há outros fatores que sopram na mesma direção. A economia mundial, por exemplo, embora ainda não esteja em voo de cruzeiro – e apesar do surgimento de novas ondas de covid-19 –, vai se reerguendo das ruínas. Contribui para essa melhora o início da vacinação em grandes centros. Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, China e Rússia começaram a imunização. Mais algumas semanas e ela se esprairá para a área do euro, quando a Agência Europeia de Medicamentos (EMA), organismo regulador do setor, liberar as que estiverem disponíveis. Antes mesmo que uma parcela importante da população seja imunizada, uma boa fase para os negócios deverá ter sido retomada.

A vitória do candidato democrata à presidência dos Estados Unidos, Joe Biden, é outro fator de otimismo, não só porque reinaugura políticas mais abertas de comércio exterior, mas, também, porque se tornou força propulsora de nova distribuição de recursos que irrigarão investimentos em infraestrutura e em fontes limpas de energia.

A economia da China, por sua vez, voltou a bombar. Apesar do knock-down sofrido pela pandemia, espera-se crescimento do seu PIB de mais de 2,0% para 2020, e perspectiva de um salto para os 8% em 2021. Também ajuda a disseminar o otimismo a alta das commodities. É indicação do aumento da demanda e, mais do que isso, de reativação da produção mundial. O Brasil ganha com isso, já que mais de 50% de suas exportações são receitas com vendas de commodities, especialmente minérios e produtos agrícolas

Os grandes bancos centrais não vacilaram em promover grande expansão de moeda. Os juros estão praticamente zerados ou são negativos nas economias maduras, situação que favorece o crédito, estimula investimentos e, como ficou dito, empurra o investidor para aplicações de maior risco.

A situação econômica do Brasil já espalhou explosivos pelos mercados. A desordem das contas públicas vem acompanhada da falta de vontade política de saneá-las e de colocar em marcha as reformas. Mas alguma coisa funciona para melhor. Há notória recuperação da atividade econômica. Em vez de despencar 9,5% ou 10%, como cantavam antes as projeções, o PIB do ano deve cair 4,4%, como dão conta as projeções do Boletim Focus, do Banco Central. Apesar das barbeiragens do Ministério da Saúde e de quem manda nele, a vacina acabará chegando também por aqui e isso já é fator de destravamento de muita coisa que andava emperrada pela pandemia.

É uma paisagem que encoraja o investidor a arriscar-se na renda variável. Não é por outra razão que o número de pessoas físicas que passaram a aplicar recursos em ações aumentou 88,7%. Passou de 1,6 milhão em 2019 para 3,1 milhões até novembro, segundo dados da B3. 

Neste fim de ano, multiplicam-se as discussões de analistas e comentários econômicos sobre até onde pode ir a força da Bolsa. Desconfie de quem ventila certezas sobre isso. Este é um mercado volátil, sujeito a fatores psicossociais. Sobre a economia brasileira, o balanço final de fatores positivos e negativos é difícil de prever. 

O que se pode dizer é que a conjuntura externa tende a continuar favorável; as commodities, a se manterem em alta e, no momento, não se nota nenhuma pressão forte de compra de moeda estrangeira. E falta saber qual será o efeito positivo da vacina sobre a atividade econômica.

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COMENTARISTA DE ECONOMIA

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