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Fábio Alves
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O rali das commodities

Alta nos preços ajuda a economia e os ativos financeiros de emergentes

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2020 | 04h00

O holofote dos mercados globais em julho foi naturalmente para o preço do ouro, que chegou a superar o recorde histórico de US$ 2.000 a onça na sexta-feira passada, acumulando o maior ganho mensal desde fevereiro de 2016, mas o fato é que as cotações de quase todas as commodities registraram forte alta no mês passado, suscitando a seguinte pergunta: esse rali das matérias-primas ainda tem fôlego para continuar?

Os ganhos nos preços das commodities foram alimentados por uma combinação de diferentes fatores, desde macroeconômicos até idiossincráticos de cada setor. No caso de metais preciosos, como o ouro e a prata, foi preponderante a grande liquidez injetada nos mercados globais pelos maiores bancos centrais, levando a expectativa de taxas de juros reais negativas nos Estados Unidos, por exemplo.

Os metais preciosos também se beneficiaram de uma corrida em busca de proteção pelos investidores quando despencou o PIB de vários países, especialmente em abril, com as medidas de isolamento social para combater o avanço da pandemia do coronavírus.

E, como aconteceu com outras commodities, a queda do dólar, moeda na qual são cotadas, deu um empurrão a mais aos preços. É uma correlação natural: dólar vai numa direção, o preço das commodities segue em outra. Em julho, o índice DXY, que mede a variação do dólar ante uma cesta de moedas fortes, registrou a maior queda em dez anos, depreciando mais de 4%. Não à toa, a cotação da prata registrou em julho um ganho de 33,4%, o maior avanço mensal desde 1982. O ouro subiu quase 11%.

O preço do petróleo, que ainda foi beneficiado pela decisão dos países que compõem a Opep+ de realizar um corte de produção de 9,7 milhões de barris por dia entre maio e julho, também subiu, com o barril do Brent ganhando mais de 5% no mês.

Em particular, a recuperação, já no segundo trimestre deste ano, da economia da China, que teve sucesso em controlar o surto de covid-19, puxou o preço das matérias-primas usadas na indústria, como cobre, alumínio e minério de ferro. Em julho, o cobre teve alta de 6,6% e o minério de ferro, de 14%.

É verdade também que a recuperação dos preços não foi apenas resultado da melhora da demanda. O surto do coronavírus prejudicou ou interrompeu, por exemplo, a mineração de vários metais base, como cobre, níquel e zinco.

“O preço das commodities cíclicas, como energia e metais-base, deve subir dada a nossa visão de que o crescimento econômico global vai acelerar significativamente para além da retomada neste terceiro trimestre”, diz Dominic Schnider, responsável pela análise de commodities do UBS Wealth Management em Hong Kong. “Um retorno ao ritmo normal de crescimento deve ajudar também a demanda e os preços de produtos pecuários.”

Schnider projeta expansão de 9,2%, em termos anualizados, do PIB mundial no quarto trimestre ante o terceiro. E prevê que os índices mais amplos de commodities tenham uma valorização de cerca de 15% nos próximos 12 meses.

Na opinião de Lucas Brunetti, analista de commodities da Garde Asset Management, possivelmente uma parte significativa das commodities não seguirá apreciando, após o primeiro movimento de normalização da atividade econômica global.

“De maneira geral, os gigantescos estímulos monetários e fiscais dos países desenvolvidos e em desenvolvimento fazem com que commodities ligadas a investimentos tenham uma perspectiva mais otimista para os próximos meses, incluindo nesse segmento os metais industriais”, explica Brunetti.

Para ele, as “soft” commodities, como os produtos agrícolas (algodão, açúcar, etc.) e os de proteína animal, são geralmente ligadas ao consumo e deverão ser menos afetadas pela política de baixos juros que deve prosseguir por um período prolongado.

“Os juros baixos devem manter uma tendência de alta nos preços dos metais preciosos, além da ajuda adicional do mercado de câmbio global com dólar fraco”, diz. “Caso a política de juros baixos consiga elevar de maneira consistente a demanda agregada mundial, aumentando o PIB global até chegar ao aumento de renda per capita, teremos uma tendência de alta de preços nas commodities de maneira geral.”

A alta nos preços das commodities ajuda a economia e os ativos financeiros de países emergentes exportadores de matérias-primas, como o Brasil. Julho foi excepcional. Resta saber se esse rali terá vida longa. 

*É COLUNISTA DO BROADCAST

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