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O Ranking da Liberdade

Na disputa ideológica, a Internet tornou-se um dos mais importantes campos de batalha do mundo

Guy Perelmuter, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2020 | 05h00

A disputa pela hegemonia geopolítica global pós-Guerra Fria está estabelecida entres os Estados Unidos e a China — os dois maiores PIBs do planeta, respectivamente. Em 2019, a combinação do produto interno bruto norte-americano (US$ 21 trilhões) e chinês (US$ 14 trilhões) era maior que os resultados do Japão, Alemanha, Índia, Reino Unido, França, Itália, Brasil, Canadá, Rússia, Coreia do Sul, Espanha, Austrália, México, Indonésia, Holanda, Arábia Saudita, Turquia, Suíça e Polônia — somados. 

Conforme falamos em nossa última coluna, essa complexa batalha está ancorada em quatro pilares: dominância militar, de infraestrutura, ideológica e tecnológica. De acordo com relatório “The End of Globalization or a more Multipolar World?” (algo como “O fim da globalização ou um mundo multipolarizado?”), publicado pelo banco Credit Suisse em outubro de 2015, levando-se em consideração uma ponderação entre militares na ativa, tanques, helicópteros de ataque, aviões, porta-aviões e submarinos, as cinco maiores potências militares do mundo seriam os Estados Unidos, Rússia, China, Japão e Índia. Como veremos mais adiante, são outras as armas utilizadas neste novo enfrentamento.

A China está criando uma poderosa ferramenta de influência através da construção de uma complexa infraestrutura, denominada de “Belt and Road Initiative”, também conhecida como “a nova rota da seda”. De acordo com a consultoria global McKinsey, 65% da população mundial e um terço do PIB global serão afetados pelo ambicioso projeto, cujas cifras atingem a casa dos trilhões de dólares. Embora o projeto se concentre na Ásia, Oriente Médio e África, países como Panamá e Bolívia já se tornaram membros da iniciativa, que atinge cerca de sessenta países. Considerando-se que o continente cujo maior crescimento populacional nas próximas décadas deve ser o africano, o aspecto estratégico desta “zona de influência” torna-se ainda mais claro. 

Influência e ideologia costumam caminhar juntas — e é neste quesito que provavelmente as diferenças entre as nações são mais visíveis. Enquanto os Estados Unidos são uma democracia, a China é uma república socialista com apenas um partido: o partido comunista. Mais do que isso, seu presidente geralmente ocupa também o cargo de secretário-geral do partido e, desde 2018, o limite para seu mandato foi eliminado, ocupando efetivamente os cargos de forma vitalícia. 

A organização norte-americana Freedom House, estabelecida em 1941 e que publica anualmente o importante relatório “Freedom in the World” (ou “Liberdade no Mundo”), também cobre aspectos como liberdade de imprensa e liberdade na Internet. Em seu levantamento de 2020, a China obteve a pior pontuação de um grupo de 65 países avaliados no que diz respeito à “Internet Freedom”: apenas 10 pontos, contra 64 do Brasil, 77 dos Estados Unidos e 95 da Islândia. 

Historicamente, o domínio de novas tecnologias sempre forneceu vantagens competitivas para as nações, sendo parte integrante das suas estratégias militares. A Idade do Bronze (cerca de 3.300 a.C. a 1.200 a.C.) é um dos primeiros exemplos de diferenciação para as sociedades detentoras do conhecimento: grupos capazes de fundir cobre com estanho, arsênico ou outros metais obtinham o bronze, metal mais resistente e duradouro. A pólvora (ano 900), descoberta dos chineses, ou os veículos aéreos não-tripulados — cujo primeiro uso documentado ocorreu em março de 1848, com balões do exército austríaco foram carregados de explosivos para sufocar uma revolta na cidade de Veneza — são exemplos adicionais de como a tecnologia é a base para os avanços militares.

Mas agora, no que diz respeito ao quarto pilar da rivalidade — a tecnologia — dois aspectos precisam ser levados em consideração: ciberespionagem e a adoção e estudo de técnicas de inteligência artificial. Vamos analisá-los em nossa próxima coluna. Até lá.

* Guy Perelmuter é fundador da GRIDS Capital e autor do livro Futuro Presente - o mundo movido à tecnologia, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

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