O recado do Banco Central

A falta de novidades na Ata do Copom divulgada ontem não pode ser considerada como falta de recado do Banco Central, presidido por Alexandre Tombini, aos agentes da economia.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2012 | 03h06

E o principal recado que se consegue depreender do texto é que continua em aberto a possibilidade de baixa adicional dos juros, com a mesma "parcimônia". Ou seja, caso nada de especialmente errado aconteça até dia 29 de agosto, data da próxima reunião, será providenciado mais um corte dos juros básicos (Selic), de 0,5 ponto porcentual, para 7,5% ao ano.

Entenda-se: o sistema de metas de inflação, ainda que "flexibilizado" como agora, prevê redução dos juros ou expansão do volume de dinheiro na economia sempre que a inflação estiver convergindo para o centro da meta - neste ano, de 4,5%. É o que o Banco Central indica que esteja ocorrendo.

O Copom não dá sinais sobre até onde pode ir o atual ciclo de afrouxamento monetário. Dessa vez, somente repetiu e enfatizou a mesma fieira de fatores que já vinham sendo apontados como responsáveis por uma inflação mais baixa no Brasil. Os principais são: perspectiva de queda geral dos preços em economias avançadas; queda na demanda de commodities, em consequência da paradeira global; falta de soluções imediatas para a crise global e, portanto, prolongamento indefinido da crise; e riscos limitados para a disparada da inflação no País.

A objeção que se pode fazer à reafirmação dessa aposta baixista é que os mais recentes indicadores de preços mostram nova estocada acumulada nas últimas quatro semanas. Ontem, por exemplo, a segunda prévia do IGP-M aponta para um avanço importante no item que avalia os preços praticados no mercado atacadista, de 1,45% sobre a segunda prévia do mês anterior. Como os preços no atacado tendem, em alguma medida, a ser repassados para o varejo, não seria de estranhar que, nas próximas semanas, o custo de vida medido pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acuse essa pressão.

Essa nova safra de preços mais altos provém de duas fontes: do forte avanço dos preços das commodities agrícolas, em decorrência da estiagem nos Estados Unidos; e da alta de mais de 20% nas cotações da moeda estrangeira (câmbio) e, consequentemente, do encarecimento das importações.

E há o reajuste dos combustíveis. O do óleo diesel, de 6%, já aconteceu e já está aumentando o custo do frete. O da gasolina virá provavelmente depois das eleições de outubro. O Banco Central registra que não espera revisão dos preços da gasolina, provavelmente porque a decisão nesse sentido foi tomada depois do dia 11, data da última reunião do Copom, objeto da ata em questão.

Essas pressões novas podem não ser suficientemente fortes para estancar o ciclo de baixa dos juros. Primeiramente, por uma razão técnica: porque podem ser neutralizadas pela tendência desinflacionária, proveniente do exterior. Há dois dias, o Fundo Monetário Internacional advertia para o forte risco de deflação (queda prolongada da inflação) na economia mundial. Em segundo lugar, por uma razão política: a baixa dos juros é um dos poucos campos importantes da economia em que o governo Dilma consegue mostrar serviço.

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