O receio da estagflação

Com a divulgação da ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), na semana passada, ficou claro que o principal objetivo do Banco Central ao manter a taxa de juro foi evitar que se consolide no mercado a percepção de que ele não tem mais compromisso com o centro da meta de inflação de 4,5% em 2009. Se reduzisse a taxa, o Copom imagina que teria dado um sinal de relaxamento com a inflação, o que permitiria o repasse para os preços da maxidesvalorização do dólar dos últimos meses.A queda da cotação do dólar e também da taxa dos juros de 360 dias, logo após o anúncio da manutenção da Selic, parece indicar que a decisão do Copom cumpriu o objetivo estipulado, ou seja, de agir sobre as expectativas dos agentes econômicos e conter a idéia de que a autoridade monetária estaria apenas preocupada, neste momento, com os efeitos da forte desaceleração da economia brasileira em decorrência da crise internacional.O receio do Copom com a possibilidade de repasse da alta do dólar para os preços internos perpassa toda a ata. ''O aumento da aversão ao risco e o aperto, inédito nas últimas décadas, das condições de liquidez prevalentes nos mercados internacionais impõem ajuste no balanço de pagamentos que, a despeito do aumento da resistência externa da economia brasileira, pode vir a ocasionar incremento das pressões inflacionárias, especialmente no curto prazo'', diz um trecho da ata do Copom.Para aqueles que não são economistas ou não estão habituados com o economês, o Copom quis dizer na ata que o Brasil poderá enfrentar, no próximo ano, dificuldades sérias para fechar as suas contas externas, pois os investidores estrangeiros se retraíram e os bancos internacionais restringiram suas operações de financiamento, o que poderá provocar uma elevação ainda mais forte da cotação do dólar, com repercussões negativas sobre a inflação. Por isso, o BC quer ter cuidado com o déficit em conta corrente, aquela conta que registra todas as receitas e despesas do País com o comércio e com os serviços.O Copom avaliou que ''as perspectivas para a evolução da atividade econômica se deterioraram'' e que ''há sinais de que o ritmo de expansão da demanda doméstica estaria, atualmente, contribuindo de forma menos intensa para o dinamismo da atividade econômica''. Mesmo assim, os integrantes do Comitê entenderam que o risco de um cenário menos benigno para a inflação ''segue relevante''. Aqui, é preciso observar que não é apenas o Copom que se preocupa com a persistência da inflação mesmo em um quadro de clara desaceleração econômica. Alguns setores do governo temem que o Brasil possa estar ingressando numa situação de estagflação.A estagflação é um fenômeno marcado, simultaneamente, pela desaceleração econômica, pelo aumento do desemprego e por uma inflação persistente. A economia brasileira está há quase três meses em desaceleração, mas a queda da inflação ainda é incipiente, provavelmente por causa do impacto da brutal subida do dólar sobre os preços. O desemprego ainda não começou a aumentar, mas há indicações de que isso ocorrerá nos próximos meses.Com a recessão instalada na Europa, Estados Unidos e Japão, o mercado interno passou a ser o principal sustentáculo do crescimento econômico brasileiro. Por isso, o governo está decidido a preservá-lo a qualquer custo. Uma política monetária mais conservadora praticada pelo Banco Central, destinada a controlar a inflação, não chega a ser criticada pelo Palácio do Planalto, pois existe o entendimento no governo de que uma inflação mais alta provocará erosão dos salários, queda da demanda e o aprofundamento do quadro recessivo.Mas o governo entende que, para enfrentar a estagflação, é necessário reduzir o custo financeiro (o chamado spread) dos empréstimos bancários, que subiu muito nos últimos meses. A expectativa do governo é que a última decisão do Conselho Monetário Nacional (CMN), que autorizou o Banco Central a repassar parte das reservas internacionais do País aos bancos para que eles emprestem a empresas brasileiras com dívidas no exterior, reduza o custo do dinheiro.BC usa superávit primário maiorNa ata da sua última reunião, o Copom informa que o seu cenário macroeconômico leva em conta a hipótese de superávit primário do setor público este ano de 3,8% do Produto Interno Bruto (PIB) "incrementado em 0,5 ponto porcentual". Ou seja, superávit de 4,3% do PIB. Ocorre que isso não acontecerá mais por causa da criação do Fundo Soberano do Brasil (FSB), na semana passada. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá assinar medida provisória nos próximos dias passando 0,5% do PIB do superávit primário deste ano para o FSB. O superávit primário de 2008 não será, portanto, de 4,3% do PIB. Esse é mais um complicador na definição da taxa de juro, pois os recursos do FSB, embora impactem o superávit primário deste ano, só serão efetivamente gastos em 2009.A política fiscal do próximo ano será, portanto, mais expansionista. Não é possível saber qual será o superávit primário de 2009, pois tudo dependerá do comportamento da receita tributária, que está em queda.

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