O rei dos shopping centers do Nordeste

O rei dos shopping centers do Nordeste

Desde que vendeu a rede Bompreço e o cartão Hipercard para a holandesa Royal Ahold, em 2000, o empresário sergipano João Carlos Paes Mendonça andou meio sumido no eixo Rio-São Paulo. Mas o homem que presidiu a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) por dez anos, nos anos setenta e oitenta, e foi membro do Conselho Monetário Nacional entre 1984 e 1986, já construiu um novo império. Aos 71 anos, é dono de um dos maiores grupos de shopping centers do País, com dez empreendimentos no portfólio. O décimo primeiro - e um dos mais ambiciosos desse mercado - acabou de ser anunciado.

Angela Lacerda / Recife, O Estado de S.Paulo

05 Abril 2010 | 00h00

Enquanto a maioria dos seus concorrentes foi à Bolsa ou se associou a grandes fundos de pensão e companhias estrangeiras, Paes Mendonça segue independente. "Negócio de shopping é de longo prazo", afirma o empresário, sem demonstrar incômodo se boa parte dos shoppings centers de origem familiar está passando para as mãos de grandes grupos. "Tem espaço para todos."

Em março, o grupo JCPM (iniciais do nome do empresário) anunciou o projeto do shopping RioMar, na zona sul do Recife. Será o quinto do grupo no Estado onde Paes Mendonça fez fortuna. O empresário prevê investimentos da ordem de R$ 500 milhões para colocá-lo de pé. Mas ele não pensa investir o dinheiro sozinho. Pretende usar seu prestígio entre os investidores e empresários da região para levantar pelo menos 30% desse valor.

"João Carlos é um empresário extremamente otimista, um conhecedor profundo do varejo. É um projeto poderoso, um dos maiores do País", diz Luiz Fernando Veiga, presidente da Associação Brasileira de Shopping Center (Abrasce). "Ele não tem medo da concorrência. Tanto que vai lançar um shopping próximo ao que ele tem no Recife."

O empreendimento vai concorrer com o Shopping Recife, onde Paes Mendonça é sócio da BRMalls, com um terço do negócio. Normalmente, o grupo é o controlador em vários dos seus empreendimentos. A maioria está no Nordeste. Só no Recife, ele já tem quatro shoppings. Apenas dois - Villa Lobos e Granja Viana (em construção) - ficam em São Paulo. "Mas eu não penso em ampliar para o Sul/Sudeste. Meu foco, hoje, se concentra na Bahia, Sergipe e Pernambuco", diz Paes Mendonça, que não revela o faturamento nem o valor dos ativos do grupo.

O negócio de shopping centers vive um de seus melhores momentos. Neste ano, o mercado deve assistir a 21 inaugurações - um número recorde na história, segundo a Abrasce. O Iguatemi de Brasília inaugurou essa lista. No ano passado, as vendas nesses centros cresceram 9%. Neste ano, a previsão inicial era de 12%, mas deve ser revista para cima.

Nova rotina. Paes Mendonça não tem do que reclamar. O empresário leva uma vida completamente diferente da época em que comandava 22 mil funcionários - o Bom Preço chegou a figurar na terceira posição do ranking nacional de supermercados - e visitava quase que diariamente alguma das 102 lojas da rede espalhadas por sete Estados nordestinos. Hoje, dirige dez diretores e uma equipe enxuta, da qual reconhece cobrar muito.

Embora não mais de forma tão direta, continua acompanhando de perto da gestão dos seus empreendimentos. Do seu escritório, que ocupa o vigésimo andar do JCPM Trade Center, o edifício empresarial mais luxuoso do Recife, construído pelo grupo, com vista para a praia de Boa Viagem e a bacia do Pina, Paes Mendonça diz que não opera os shoppings. "Somos uma holding. Construímos, fazemos locação, comercializamos participação com os lojistas e eles que operam", diz. "Nos recebemos aluguel. É como um condomínio."

Um dos homens mais ricos do Nordeste, Paes Mendonça nasceu na Serra do Machado, no agreste sergipano, mas fez seu nome em Pernambuco, onde chegou na década de 60. Em uma sala do seu amplo escritório, guarda 36 medalhas, 16 títulos, oito honrarias e dezenas de crachás, documentos, palestras, discursos, pôsteres e fotos. Tudo para contar sua trajetória. O memorial é aberto para instituições de ensino e pesquisa. Desde que 1987, quando adquiriu o Sistema de Comunicação Jornal do Commercio (que abrange jornal e emissoras de rádio de TV), o empresário tem espaço certo para divulgação de suas realizações tanto na área de negócios como sociais.

É no seu corpo, no entanto, que Paes Mendonça, católico não praticante, carrega as medalhas que lhe dão proteção. São pelo menos cinco : de Jesus, de São João, São Judas Tadeu, Nossa Senhora de Fátima e Nossa Senhora de Praga. "Não é superstição, é fé", diz.

Lendário. Em torno do seu nome há muitas histórias sobre seu aguçado tino de empresário bem sucedido. Uma delas diz que, à medida em que construía as lojas do Bompreço, adquiria terrenos próximos como "reserva de mercado" para evitar o avanço da concorrência. Nesses terrenos ele estaria construindo os shoppings e empreendimentos imobiliários. O empresário diz que isso é folclore.

"Ninguém fecha mercado para ninguém, sempre se encontra uma brecha". Paes Mendonça diz sempre ter estado atento a oportunidades e, por isso, comprou, por exemplo, o terreno onde hoje funciona o JCPM Trade Center, vizinho a uma área de favela, em Brasília Teimosa. "Quem, há um tempo atrás, pensaria em investir neste lugar?"

Simples, agradável, João Carlos se define como "pragmático e transparente". Cuida da saúde e da alimentação e na última década passou a se dar ao luxo de curtir mais a vida ao lado da esposa Auxiliadora, com quem é casado há 49 anos. Antes as viagens aos Estados Unidos e Europa eram a trabalho. Atualmente, a lazer.

Tem verdadeira obsessão por sua terra natal, onde viveu uma infância pobre e difícil, ao lado do pai Pedro Paes Mendonça, que ali iniciou o negócio da família. Em 1935, seu pai abriu uma pequena mercearia que depois deu origem ao Bompreço.

Paes Mendonça é uma espécie de "governador" da Serra do Machado, cidade de 4 mil habitantes. Sua meta é que a comunidade alcance índice de analfabetismo zero e que os jovens e adultos conquistem emprego e renda e empreendam. Pessoalmente, seu último desafio foi levar para a Serra do Machado uma fábrica de brinquedos da Estrela.

Torcedor do Náutico, seu passatempo é "jogar conversa fora" com os amigos e ler biografias e livros de marketing e publicidade. Na sua cabeceira estão 1808, de Laurentino Gomes, e Gente não é salame, de Marcelo Silva. Vaidoso, deixa bem à vista na estante do escritório a terceira edição de João Carlos Paes Mendonça - vida, ideias e negócios.

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