O 'Relatório de Inflação' não convence quanto ao futuro

O economista Paulo Petrassi observou, com pertinência, que o Relatório de Inflação (RI) do Banco Central (BC) relativo ao terceiro trimestre nasceu defasado, pois se baseia em dados coligidos até 9 de setembro, com previsão de uma taxa cambial de R$ 1,65 por dólar - que hoje é de R$ 1,83.

O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2011 | 03h01

No período, houve uma série de modificações altamente suscetíveis de alterar as previsões "otimistas" do RI de inflação de 6,4%, no final deste ano, e de 4,75%, em 2012. Basta ler o documento do Banco Central para verificar que o que se temia já está acontecendo.

O BC parte da constatação de que em agosto o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 12 meses apresentava elevação de 7,53%, isto é, acima da faixa superior da meta (6,5%). O Relatório de Inflação analisa com cuidado as razões dessa situação, em que os preços livres tiveram alta de 7,8% (8,6% para os serviços) e os preços administrados aumentaram 5,7%.

O relatório dá grande importância ao ambiente internacional fortemente deteriorado, sem, no entanto, chegar a vinculá-lo diretamente à situação doméstica. Afinal, no período houve importante aporte de capital estrangeiro e créditos internacionais abundantes, a um custo apenas ligeiramente maior. O único ponto negativo seria a elevação do preço das commodities. Mas isso permitiu que as exportações fossem maiores que as importações.

O Banco Central assinala sua preocupação com o descasamento entre a demanda no mercado interno e a oferta da indústria nacional. Mas, simultaneamente, um diretor do órgão anuncia que o índice de produção calculado pelo BC está marcando um bom crescimento em setembro.

É necessário dar atenção às preocupações que as autoridades têm externado nas últimas semanas. A principal é a indexação que deverá ocorrer já no início do próximo ano, por causa do aumento do salário mínimo em pelo menos 14%. O relatório revela cuidados com a dinâmica dos salários - e com razão, diante dos dissídios que têm proporcionado ganhos reais. As expectativas de inflação são claras nos reajustes salariais.

Os pontos que o RI considera positivos são uma moderação do crescimento do emprego, uma queda (muito duvidosa) do preço das commodities agrícolas e, especialmente, os efeitos positivos da política fiscal (mas as despesas aumentaram 10,6% em oito meses).

O documento parece ter esquecido o balanço de pagamentos de 2012 e, especialmente, a evolução da taxa cambial. Apenas reconhece o nível de incerteza crescente - que não procura dissipar.

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