DIDA SAMPAIO/ESTADAO
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Análise: O retorno das declarações desastrosas sobre câmbio

A dinâmica de declarações do ministro e de reações posteriores do Banco Central, para acalmar os negócios, faz lembrar o período do petista Guido Mantega no Ministério da Fazenda

Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2019 | 17h35

O ministro da Economia, Paulo Guedes, reeditou a fase de declarações desastradas de titulares da pasta sobre o câmbio, bem comuns nos tempos de Guido Mantega. Durante evento em Washington, nos EUA, Guedes afirmou na noite de ontem não estar preocupado com o dólar acima de R$ 4,20 e que "é bom se acostumar com o câmbio mais alto e juro mais baixo por um bom tempo".

O comentário foi a senha para que o dólar à vista chegasse perto de R$ 4,27 mais cedo e, com a possibilidade de uma eventual disfuncionalidade do mercado, o Banco Central convocasse um leilão extra de venda de dólar à vista. Como ocorre em operações deste tipo, a instituição não divulgou o montante efetivamente vendido. O dado estará disponível apenas na próxima semana. No entanto, ficou claro que a operação acalmou as cotações apenas momentaneamente. Tanto que nesta tarde o dólar à vista ultrapassou a linha dos R$ 4,27. E o BC convocou nova operação de venda de dólares, há pouco.

Essa dinâmica de declarações do ministro e de reações posteriores do Banco Central, para acalmar os negócios, faz lembrar o período do petista Guido Mantega no Ministério da Fazenda, com o então presidente do BC, Alexandre Tombini, tentando apagar incêndios.

Um exemplo: em 29 de maio de 2013, na véspera do fechamento da ptax do mês, o então ministro Mantega fez as cotações dispararem ao comentar que o câmbio não é utilizado para combater a inflação. "É flutuante e, neste momento, o câmbio de todos os países está desvalorizando em relação ao dólar. É um movimento internacional e não tem por que sermos diferentes", afirmou Mantega na época.

Outro exemplo: em 30 de janeiro de 2013, também na véspera da ptax, Mantega afirmou que o dólar não iria "derreter", que a política cambial permanecia a mesma e que o câmbio não seria usado para controlar a inflação. O resultado foi a alta do dólar, que forçou o BC a intervir.

Estes são apenas dois exemplos de declarações desnecessárias sobre o dólar feitas por Mantega nos anos em que foi ministro. Isso era comum, curiosamente, em datas próximas da determinação da ptax, o que amplificava o estrago no câmbio.

Ontem, Guedes reeditou estes péssimos momentos. Uma coisa é falar por meio do "discurso de almanaque" do BC, que repete que o câmbio é flutuante e vai intervir quando houver disfuncionalidade. Outra coisa é falar que não está preocupado com o dólar no nível atual. Este tipo de comentário não ajuda o BC de forma nenhuma.

Além disso, Guedes também resolveu falar sobre o Ato Institucional nº 5. "Não se assustem então se alguém pedir o AI-5", disse o ministro. Apenas para lembrar, o AI-5 foi uma das mais duras medidas instituídas pela ditadura militar, em 1968, ao revogar direitos fundamentais e delegar ao presidente da República o direito de cassar mandatos de parlamentares, intervir nos municípios e nos Estados.

Como comentou hoje o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), a declaração de Guedes gera insegurança "na sociedade e, principalmente, nos investidores".

Essa conjunção de fatores foi perceptível no mercado de câmbio hoje: enquanto o dólar subia mais de 1% no Brasil ante o real, a moeda americana mostrava-se mais acomodada no exterior. Há pouco, o dólar chegava a cair ante o dólar australiano, o dólar canadense e o dólar neozelandês. E a moeda americana estava praticamente estável em relação à rupia e ao rublo.

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