Tom Jamieson/The New York Times
Tom Jamieson/The New York Times

O retorno das rádios piratas, no YouTube

Movimento, que dribla algoritmos do site de vídeos, lembra as emissoras ‘underground’ do século passado

Jonah Engel Bromwich, The New York Times

07 Maio 2018 | 05h00

Luke Pritchard e Jonny Laxton tinham 13 anos quando se conheceram em um colégio interno em Crowthorne, na Inglaterra, em 2011. O que os unia era o amor pela música underground. Em 2014, eles iniciaram um canal no YouTube, o College Music, para promover os artistas dos quais mais gostavam.

No início, o canal cresceu lentamente. Então, na primavera de 2016, Pritchard descobriu o live streaming 24 horas – um recurso que permite que os usuários do YouTube transmitam um único vídeo continuamente.

O College Music tinha 794 inscritos em abril de 2015, um ano antes de Pritchard e Laxton começarem a transmitir sua programação ao vivo. Um mês depois dessa mudança, o número saltou para 18.440. Em abril de 2016, eles tinham 98.110 inscritos e, desde o mês passado, com três transmissões contínuas ativas, eles têm mais que o triplo dessa quantia, com 334 mil inscritos. Ganham cerca de US$ 5 mil por mês com as transmissões.

Os rapazes utilizaram uma estratégia, que, nos dois últimos anos, ajudou um certo tipo de canal do YouTube a conquistar grande popularidade. Centenas de canais independentes começaram a transmitir músicas sem parar, com vídeos que combinam listas de reprodução com centenas de músicas e animações curtas em “loop”, muitas vezes tiradas de filmes de anime sem permissão de direitos autorais.

A transmissão contínua vem em muitos gêneros diferentes. Dois dos canais da College Music fazem parte de uma família de canais que transmite o que as emissoras chamam de lo-fi (baixa fidelidade), hip-hop e música suave que soaria familiar aos fãs de J. Dilla e Nujabes.

Esses vídeos, com centenas de milhares de assinantes, são algumas das estações de música de streaming mais populares no site. Muitos são organizados por jovens europeus, que podem ter apenas uma leve familiaridade com a história da música que estão disseminando. E eles não sabem por quê, mas seus usuários realmente insistem nas imagens de anime.

Laxton disse que os fãs protestaram quando as imagens do vídeo foram alteradas e forneceram uma captura de tela de um usuário particularmente irritado, solicitando que um clipe de anime fosse recuperado em uma de suas três estações.

Direitos autorais. Os canais ocupam uma lacuna precária entre o algoritmo do YouTube e seu policiamento de direitos autorais, atraindo comparações com as estações de rádio piratas não licenciadas do século 20, agora recriadas na esfera digital. 

Muitos dos canais surgem e somem no espaço de uma semana, mas a presença deles tornou-se uma parte atraente do ecossistema musical do site. E enquanto concorrentes como o Spotify estão ganhando terreno, o YouTube ainda domina o mundo do streaming, segundo o mais recente estudo Music Consumer Insight Report, da Federação Internacional da Indústria Fonográfica.

Quando Pritchard e Laxton começaram a transmitir, eles administravam o canal a partir do dormitório de Pritchard, que ficava bem acima do quarto do dono da casa. “A cada dois dias, ele me dizia para baixar o volume, porque ele podia ouvir a batida do som do baixo”, disse Pritchard.

Pritchard, hoje com 20 anos, disse que há tantos novos concorrentes agora que se tornou muito mais difícil conseguir o tipo de sucesso instantâneo que ele e Laxton descobriram há dois anos.

Permanência. As transmissões contínuas, como as deles, têm sucesso em parte porque exploraram o comportamento do usuário. Segundo operadores de canal, os usuários do YouTube geralmente saem de um vídeo após alguns minutos, antes que o clipe seja concluído. 

Mas os usuários que ouvem a transmissão contínua tendem a tocá-la por meia hora ou mais, geralmente como música de fundo. Isso aumenta as taxas de retenção dos vídeos, o que obriga o YouTube a promovê-los mais amplamente.

Uma porta-voz do YouTube disse que, após o site lançar a opção Live, em 2011, e a transmissão contínua, em 2012, o número de canais ao vivo transmitidos quadruplicou ano após ano.

Movimento enfrenta vigilância corporativa

Um dos canais mais populares do movimento lo-fi é chamado ChilledCow. A programação é dirigida por Dimitri, um jovem de 23 anos que mora nos arredores de Paris. Ele começou suas transmissões em 25 de fevereiro de 2017, e seu público teve um crescimento vertiginoso. No entanto, ao ser entrevistado, Dimitri pediu que seu sobrenome não fosse usado. 

Esse receio tem razão de ser. O YouTube, que pertence ao gigante Google, disciplina estações que não seguem as diretrizes estabelecidas. As transmissões são encerradas o tempo todo e até mesmo os veteranos da área são abatidos. Bas, de 28 anos, que dirige um dos canais mais populares da família lo-fi, a Chillhop Music, de sua casa em Roterdã, foi recentemente notificado pelo YouTube por causa de uma suposta violação de direitos autorais. No momento, ele não tem uma transmissão ativa.

Concorrência. A disposição da plataforma para exigir o cumprimento dos direitos de propriedade intelectual, mesmo que de forma casual, forçou estações como Chillhop Music, College Music, ChilledCow e outras a estabelecerem suas próprias relações com os artistas ao ponto de se tornarem uma alternativa “underground” aos serviços de reprodução de música, como Apple Music e Spotify.

Nico Perez, fundador da MixCloud, é um dos que elogiam os canais de música no YouTube, dizendo que eles foram uma resposta natural à posição hegemônica das playlists de rádio. Ele ressalvou, porém, que o poder do YouTube sobre esse movimento também é uma questão problemática. 

“Se eles crescerem a ponto de se tornarem realmente importantes, o YouTube terá de decidir se quer ou não apoiá-los ou se esse não é o tipo de coisa que quer em sua plataforma”, afirmou Perez.

Selo fonográfico. Atualmente, Luke Pritchard dirige o canal do YouTube College Music de sua casa em Reading, tendo abandonado a faculdade de Direito para dedicar-se à música em tempo integral. Ele agora está lidando com dois chefes em casa, os seus pais. 

Jonny Laxton, de 19 anos, está na universidade em Leeds, onde caça talentos e inscreve artistas para a gravadora que os dois começaram juntos, também chamada College Music. Em um bom mês, ganham mais US$ 5 mil, disseram eles. “Acho, que daqui a um ano, o nosso foco principal será o selo”, disse Laxton.

Mas ele disse que a nova competição no YouTube não foi o fator que os motivou a mudar de área. “Eu e Luke começamos a tentar fazer com que mais pessoas ouvissem a música que nós achávamos que merecia ser ouvida”, disse. “Quanto mais pessoas estiverem no mercado, melhor. Isso significa que há mais oportunidades para os artistas que nós conseguimos ajudar.”

Mais conteúdo sobre:
SpotifymúsicarádioYoutube

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.