O risco de um pacto do mandonismo

“Um espectro ronda a Europa.” Era a frase com que Marx iniciava o seu Manifesto do Partido Comunista, em 1848.

Marco Antonio Rocha, O Estado de S.Paulo

23 Novembro 2016 | 05h00

Nos dias que correm se poderia dizer que uma “onda conservadora” é o espectro que ronda a Europa e o mundo, segundo muitos analistas, sob aplausos de uma parte da comunidade mundial e com grande sobressalto da parte não conservadora, chamada também de “progressista”, ou esquerdista.

O resultado do referendo na Inglaterra que aprovou a saída do país da União Europeia e o resultado do pleito nos EUA com a escolha de Donald Trump para presidente foram os dois fatos políticos que reforçaram a tese da escalada do conservadorismo no plano internacional, cujos sinais precursores já se vinham manifestando há vários anos. O curioso é que a ascensão política de Vladimir Putin no universo russo, que já vem de muitos e muitos anos, não produziu reação e rejeição tão enérgica no mundo democrático ocidental quanto a de Donald Trump, nos EUA, que ainda nem tomou posse. Mas os dois têm e expõem o mesmo tipo de truculência verbal e mental e parecem mais chegados ao jogo de cotovelos e sopapos na política do que ao velho e tão brasileiro jogo de cintura. No que tange ao que pensam sobre política externa, por exemplo, não é muito possível uma comparação competente, uma vez que a visão de Putin, nesse quesito, é pouco conhecida do público em geral e, propositadamente talvez, pouco divulgada. O mesmo se pode dizer de qualquer tentativa de comparação entre o que defendam ou pensem em relação a estrangeiros, imigrantes, refugiados, religiosos, minorias, etc. A Rússia não é um país de estrangeiros, ou de imigrantes, como são os EUA, embora abrigue etnias muito diversificadas e até hostis entre si, o que não é o caso dos EUA. No capítulo das religiões, os dois países oferecem um variado cardápio, com predominância, até onde se pode avaliar, pelo menos no caso da Rússia, de denominações com origens cristãs.

Mas e a economia?

Neste campo, digam o que disserem os analistas, o que se pode sentir é que ambos aderem ao credo de impor a política (leiam-se as suas visões políticas pessoais) à economia. Trump seria, no entendimento geral, um campeão da livre empresa e do capitalismo selvagem, enquanto Putin sente saudades da “planificação central” da Rússia soviética e do estatismo mais exacerbado. Mas, no fundo, o que ambos gostam mesmo é de mandar, mandar pessoalmente em tudo, e desse tudo não escapa a economia. Trump invoca o desemprego vivido em alguns Estados americanos pelo deslocamento de fábricas para o exterior para tentar promover de alguma maneira o retorno dessas fábricas ao lar natal, e não tem nenhum pudor em declarar que a economia americana deve servir aos americanos, e não ao mundo, seja desenvolvido ou emergente.

Não nos surpreendamos, pois, se mesmo a “onda conservadora” que se teme ceder lugar a uma onda de mandonismo quixotesco pessoal e que na cabeça dos dois esteja brotando uma boa lembrança dos tempos dos dois “impérios”, quando, sob o regime da guerra fria, ambos impunham disciplina em seus quintais e decidiam o que supunham fosse melhor para a humanidade. Os ademanes de Trump em direção a Putin, e vice-versa – que a imprensa mundial tem notado, mas ainda não analisou a fundo –, podem, sim, vir a ser o prenúncio de um “pacto do mandonismo” em escala mundial. Trump terá oito anos, teoricamente, para forjá-lo, enquanto Putin parece ter o tempo que desejar.

Talvez seja tempo de conservadores e progressistas olharem com mais atenção para o risco ainda difuso de um novo tipo de imperialismo, bipartido, que um possível conluio entre essas duas lideranças, nada benfazejas, pode nos impor de algum modo.

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