'O risco é que o Banco Central acabe tendo de prolongar o aperto monetário'

ENTREVISTA

Fernando Dantas / RIO, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2010 | 00h00

Gustavo Loyola, Sócio da Tendências Consultoria Integrada

Gustavo Loyola, sócio da Tendências Consultoria Integrada e ex-presidente do Banco Central (BC), acha que a decisão de elevar a Selic em 0,50 ponto porcentual pode prolongar o ciclo total de alta da taxa básica.

O economista, que esperava - e julgava melhor - um aumento de 0,75 ponto porcentual conversou com o Estado, logo depois do anúncio da decisão pelo Banco Central.

O que o sr. achou da alta de 0,5 ponto porcentual?

Eu espero que seja bem justificada por eles. O Banco Central assume o risco de ter tomado uma decisão meio em função de dados de alta frequência.Isso pode levá-lo a ter de prolongar um pouco mais o processo de ajuste caso a tendência desenhada por esses números recentes não se confirme.

Que dados podem ter embasado a decisão do Banco Central?

O IPCA de junho (zero), a expectativa do IPCA para julho, e o efeito de ambos sobre as expectativas de inflação. Além disso, os dados sobre atividade econômica, como produção industrial, comércio, etc. O problema é que podemos estar diante de uma acomodação momentânea da atividade econômica, que pode voltar a acelerar no terceiro trimestre. Quanto à inflação, a redução que observamos teve muito a ver com a volta do preço de alimentos, o que, aliás, já era esperado. Não tem ainda, a meu ver, uma situação claramente definida para dizer que houve redução da tendência.

Mas não há sinais de desaceleração externa e no Brasil, que podem refrear as pressões inflacionárias?

Em termos do Brasil, pode até ser, mas não acho que já existam evidências firmes em relação a isso. O Banco Central está inferindo, em função daqueles dados, que os riscos de a inflação ficar muito fora da meta são menores. Como já disse, isso é duvidoso. E se a necessidade de aperto monetário de fato se revelar menor, teria sido preferível aumentar 0,75 ponto agora e deixar de fazer algum aumento mais à frente,

O sr. acho que o BC sinalizou esse aumento de 0,75 ponto?

No Relatório de Inflação que foi publicado há pouco, e na comunicação do Banco Central em geral, acho que dava a entender que o aumento de 0,75 ponto porcentual era o que deveria ser esperado. Aliás, não entendi a última frase do comunicado, que diz que essa decisão vai contribuir para intensificar o processo de redução de riscos inflacionários. Mas vamos esperar a ata para ver como desenvolvem esse raciocínio.

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