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O risco vem de fora

Elevação maior dos juros nos EUA e crescimento menor na China estão no radar

Fábio Alves *, O Estado de S.Paulo

27 Dezembro 2017 | 05h00

Em meio a tanta turbulência causada pela Lava Jato em 2017, a economia brasileira contou com ventos a favor do cenário externo para se descolar da crise política e crescer praticamente o dobro do que era estimado no início do ano. Mas a ajudinha de fora seguirá tão favorável em 2018?

O principal tema da economia internacional neste ano foi um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) global mais acelerado e disseminado, com a inflação em baixa, levando a um aperto monetário gradual por parte dos principais bancos centrais de países desenvolvidos, em particular o Federal Reserve (Fed).

Esse gradualismo do Fed, que elevou os juros americanos três vezes em 2017, manteve a cotação do dólar bem comportada ante outras moedas internacionais, incluindo o real.

Um câmbio favorável contribuiu para a forte desaceleração da inflação no Brasil, ampliando o efeito da queda nos preços dos alimentos, além de ter permitido ao BC brasileiro reduzir a taxa Selic para 7,0%, seu menor nível histórico. No início do ano, os analistas ouvidos pela pesquisa Focus estimavam uma inflação de 4,81% e um crescimento de 0,50% do PIB em 2017. No boletim mais recente, a projeção para a inflação caiu para 2,78% e a do crescimento do PIB subiu para 0,98%.

Mas quais os principais riscos ao cenário externo em 2018?

Para o Brasil, é importante destacar dois: o Fed elevar os juros americanos mais do que o previsto e a economia chinesa desacelerar o crescimento num ritmo maior do que o esperado.

Como a inflação americana vem perdendo fôlego, a aposta dos investidores é que em 2018 haverá ao redor de duas altas dos juros básicos nos Estados Unidos. Já o Fed projeta três elevações. O núcleo do índice de preços de gastos com consumo, medida de inflação preferida do Fed, subiu 1,5% na taxa anualizada em novembro, ainda distante da meta de 2,0%.

Mas é crescente o número de importantes instituições financeiras internacionais que apostam em quatro elevações dos juros americanos pelo Fed em 2018. E essa corrente vem engrossando depois que o presidente Donald Trump conseguiu fazer o Congresso americano aprovar uma reforma tributária que introduzirá corte de impostos, o que, na avaliação de analistas, vai contribuir para acelerar o crescimento da economia e, por tabela, da inflação em 2018.

Se o mercado estiver errado e embutir nas taxas dos contratos futuros de juros uma probabilidade de três altas de juros, em comparação com a aposta atual de duas elevações, o impulso na cotação do dólar será considerável. E se essa precificação passar a refletir quatro altas, como preveem economistas de várias renomadas instituições financeiras internacionais, o impacto será significativo. Nesse caso, não se pode descartar uma disparada do dólar frente o real.

Outro risco para o Brasil vem da China. O governo chinês só deve anunciar em março sua meta de crescimento para 2018. Neste ano, essa meta foi de uma expansão de 6,5%, mas a economia chinesa fechará 2017 com uma alta do PIB de 6,8%. Ou seja, a China foi um vento a favor neste ano.

Muitos creem que o governo chinês manterá a meta de crescimento do PIB em 6,5%, mas é grande o número de analistas que estão prevendo um desempenho mais fraco do que essa meta no ano que vem.

Todavia, para conter o risco com o forte crescimento do crédito e do endividamento por parte de empresas e governos locais, a política monetária chinesa deve ficar mais restritiva. Outras medidas também devem ser adotadas para esfriar o crédito e diminuir a dívida do setor não financeiro como proporção do PIB chinês, a qual já ultrapassa 235%.

Deixará o governo chinês o PIB desacelerar em 2018 para muito abaixo de 6,5% a fim de evitar problemas mais graves à segunda maior economia do mundo num futuro não tão distante?

Por enquanto, o cenário base dos analistas brasileiros e internacionais é de que o ambiente externo seguirá favorável em 2018. E isso significa um aperto gradual nos juros americanos e um crescimento não tão mais fraco da China. O problema é que o risco a esse cenário está mais para uma surpresa negativa do que positiva em 2018.

* É COLUNISTA DO BROADCAST

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