André Dusek/ Estadão
André Dusek/ Estadão

O ritmo das remadas

A concepção de Ilan Goldfajn é a de que, haja o que houver, o Banco Central tem de ser transparente

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

19 Julho 2016 | 21h00

Nessa terça-feira, 19, o Comitê de Política Econômica (Copom) teve a primeira reunião de dois dias para definir o nível dos juros básicos (Selic) sob o comando do novo presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn.

Se houver uma queda dos juros, será surpresa total, como tempestade de neve no Saara. Os agentes econômicos auscultados semanalmente pelo Banco Central, por meio da Pesquisa Focus, esperam que nas três últimas reuniões do Copom deste ano (agosto, outubro e novembro) os juros caiam 1 ponto porcentual ao ano, para 13,25%, mas não agora.

Todos os dias, empresários e gente que acompanha a economia reclamam do que entendem que seja a pouca pressa do Banco Central para iniciar a derrubada dos juros. Argumentam que a demanda está sufocada, que por aí não brota inflação e que, portanto, é preciso tratar de facilitar a circulação de dinheiro como primeiro passo para a retomada do crescimento.

No entanto, esse é apenas um pedaço da lógica com que trabalha o Banco Central. Seu mandato mais importante consiste em enquadrar a inflação no centro da meta, por meio da calibragem da moeda na economia, medida pelos juros. E, ainda que não esteja fazendo o diagnóstico inteiramente certo, o entendimento do Banco Central é o de que a Selic ainda precisa ficar mais um tempo onde está para que possa continuar a reunir empuxo suficiente para empurrar a inflação para a meta ao final de 2017.

A principal novidade da nova administração do Banco Central é a mudança de sua política de comunicação. Ao longo do período Dilma, atuava como o deus Apolo no templo de Delfos, na Grécia Antiga, que se manifestava no meio de vapores que saíam do chão, por frases confusas e quase sempre ambíguas, articuladas por uma sacerdotisa em transe. A mensagem podia ser uma coisa ou o seu contrário, de maneira que, fosse qual fosse o desfecho do objeto da consulta, Apolo sempre tinha razão.

A concepção de Goldfajn é a de que, haja o que houver, o Banco Central tem de ser transparente. Tem de dizer na lata o que vê e o que não vê. O objetivo é transmitir credibilidade e, assim, garantir a condução das expectativas, um dos principais objetivos do sistema de metas de inflação. Antes de se tornar presidente do Fed (o banco central dos Estados Unidos), Ben Bernanke dizia que um banco central tem de agir como o patrão de um barco a remo. Tem de cantar em alto e bom som o ritmo das remadas e o rumo a seguir para garantir a maior eficácia dos remadores. Se não for assim, cada remador faz o que bem entende e o barco navega a esmo.

Goldfajn começou por antecipar o início e o fim das reuniões do Copom para dar tempo para a avaliação dos analistas e se comprometeu a divulgar a Ata do Copom na terça-feira seguinte e não mais na quinta-feira. Espera-se que agora, também, tanto a Ata do Copom quanto o Relatório de Inflação, os documentos mais importantes pelos quais o Banco Central se comunica com o público, sejam redigidos com uma linguagem clara e acessível. É essa a política. Falta saber como vai funcionar, porque o mercado está viciado com as frases enroladas das sacerdotisas de Apolo.

CONFIRA:

No gráfico a trajetória dos juros básicos (Selic) desde 2009.

Melhorando

O Fundo Monetário Internacional está vendo mais ou menos o mesmo que os analistas estão vendo por aqui. A recessão deste ano não será tão braba como imaginado, provavelmente mostrará queda do PIB de 3,3%. E, para 2017, a perspectiva já é de crescimento de 0,5% – e não mais de crescimento zero. As novas projeções ajudam a melhorar a percepção dos analistas globais sobre a economia brasileira e isso, por si só, pode estimular investimentos estrangeiros no Brasil.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.