Cabalar | EFE
Cabalar | EFE

O rosto por trás da máscara da Zara

Com estilo de gestão próprio, Amancio Ortega, fundador da Inditex, criou a mais bem-sucedida rede de moda do mundo

The Economist

15 de janeiro de 2017 | 05h00

É curta a caminhada da lojinha de paredes amarelas e encardidas, no centro de La Coruña, na Espanha, até o reluzente edifício de cinco andares onde há três meses foi inaugurada mais uma loja da Zara, a mais bem-sucedida varejista de “fast fashion” do planeta. Os poucos quarteirões que separam os dois endereços resumem a trajetória de Amancio Ortega: de jovem aprendiz na camisaria Gala, um pequeno estabelecimento, a mais rico empresário da Europa, acionista majoritário de uma das companhias de melhor desempenho do continente.

Segundo um funcionário da Zara que trabalha com ele, “a verdadeira história de Ortega ainda não foi contada”. Filho de um trabalhador ferroviário itinerante, teve educação pouco mais que rudimentar e, aos 13 anos, já trabalhava na camisaria. Um ex-colega diz que Ortega fala de ocasiões em que almoçava “só batatas”. Ele passou a maior parte da vida na Galícia, região relativamente pobre, sem tradição no setor têxtil. Apesar disso, foi lá que em 1975 fundou a Zara, um misto de confecção e varejista de moda que, ao lado de marcas-irmãs, opera mais de 7 mil pontos de venda no mundo inteiro.

Ortega tem 80 anos, mas leva vida ativa e é bastante presente nos negócios (ainda que não faça questão de andar particularmente bem vestido). Detém quase 60% da Inditex, holding controladora da Zara e de outras redes, que vale cerca de US$ 106 bilhões. Segundo a revista Forbes, no início de setembro, após alta nas ações da Inditex, o patrimônio de Ortega, que incluindo imóveis e outros ativos chegava a quase US$ 80 bilhões, superou, por dois dias, a fortuna de Bill Gates.

A ascensão empresarial de Ortega não se encaixa nos padrões usuais. A falta de educação formal afetou seu estilo de gestão. Pessoas próximas dizem que ele cultiva o hábito de ler, em geral romances e jornais. Mas, aparentemente, não se sente à vontade para escrever mais que alguns poucos parágrafos. Ele nunca teve uma sala ou uma mesa com computador. Prefere tocar o negócio em pé, ao lado dos colegas, no local onde trabalham os estilistas da Zara Mulher, principal linha da rede. José María Castellano, que foi vice-presidente e diretor executivo da Inditex entre 1997 e 2005, diz que o método de trabalho do antigo chefe consiste em travar discussões intensas com pequenos grupos, delegar os procedimentos mais burocráticos, escutar com atenção o que os outros têm a dizer e privilegiar comunicações orais, em vez de escritas.

É possível que a preferência por uma interlocução direta e pessoal o tenha ajudado a chegar à fórmula que está por trás do sucesso da Zara. Numa época em que o segmento de moda transferia a maior parte da produção para a China e outros países de baixa renda (como ainda faz), Ortega optou por manter as máquinas de costura por perto. Cerca de 55% das peças que a Zara confecciona saem de fábricas instaladas na Espanha, Portugal e Marrocos, a curta distância de seus principais mercados. Isso permite que coleções pequenas, mas atualizadas, sejam entregues duas vezes por semana a todas as lojas. As ações da Inditex acumulam alta de 70% desde que o grupo abriu o capital, em 2001, deixando concorrentes como Gap e H&M comendo poeira.

O estilo de liderança de Ortega parece combinar com uma personalidade introvertida. Um vídeo gravado em março mostra o empresário chegando à sede do grupo, encabulado e choroso, no dia em que uma festa surpresa havia sido organizada para comemorar seus 80 anos. Ele quase nunca fala em público e tampouco aceita condecorações, salvo pela “Medalla de Oro del Mérito al Trabajo”, recebida do governo espanhol em 2002. Colegas dizem que não ficou nem um pouco contente quando a jornalista Covadonga O’Shea publicou biografia a seu respeito, em 2008. Antes do IPO da Inditex, circulavam tão poucas fotos suas na imprensa que os investidores que iam visitá-lo frequentemente o confundiam com algum subordinado. Mas esse retraimento tem a vantagem de abrir espaço para que outros executivos do grupo brilhem. O comando da Inditex está nas mãos de Pablo Isla desde 2011. Apesar disso, todos os dias Ortega aparece para trabalhar.

Há um aspecto, pelo menos, em que Ortega se parece com o típico bilionário europeu. À maneira de outros reclusos endinheirados, como Ingvar Kamprad, fundador da gigante de móveis sueca Ikea, ele faz pouca filantropia. Arca anualmente com 500 bolsas para que jovens espanhóis possam estudar nos Estados Unidos e no Canadá, além de contribuir com algumas agências de caridade da Igreja Católica e fundos de ajuda emergencial. Com uma atividade filantrópica de maior porte, o empresário atrairia para si os holofotes, coisa que evidentemente não deseja. E, como outros no Sul da Europa, é possível que tampouco queira virar alvo de ataques políticos, como ocorreu em 2012, quando Pablo Iglesias, secretário-geral do partido de esquerda Podemos, ao se queixar do desemprego no Twitter, chamou o dono da Zara de “terrorista”.

Imóveis. Os gestores do patrimônio de Ortega, que cresce cerca de € 1 bilhão por ano, dizem estar tentando diminuir sua dependência da Inditex, adequando-o a princípios normais de investimento. A tarefa é dificultada pelo fato de Ortega só querer investir em imóveis, coisas que ele “pode tocar”, mas que demandam tempo para comprar e administrar. Em dezembro, o espanhol pagou US$ 517 milhões pelo maior edifício comercial da Flórida, o Southeast Financial Centre, em Miami.

A maior parte da renda de Ortega provém dos dividendos da Inditex. Em dezembro, o grupo divulgou resultados que certamente agradaram o fundador da Zara. Segundo dizem, ele prefere que concentrem admiração na empresa que ele construiu, não em sua pessoa.

© 2017 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

Tudo o que sabemos sobre:
The EconomistZara

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.