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Suely Caldas
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O samba do crioulo doido

Samba do crioulo doido foi uma paródia criada em 1968 pelo talentoso jornalista Sérgio Porto (pseudônimo Stanislaw Ponte Preta) que descreve personagens da nossa história em situações fora do lugar, sem nexo. Com hilariante humor político, a música imaginava a escrava Chica da Silva obrigando a princesa Leopoldina a se casar com Tiradentes, que, eleito Pedro Segundo, se aliou ao vigário dos índios Padre Anchieta e os dois proclamaram a escravidão. O samba fez tanto sucesso na época que, na anedota popular, seu título passou a designar situações mirabolantes, sem sentido, desconexas, confusas, bagunça geral, quando ninguém se entende.

Suely Caldas, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2014 | 02h06

Se vivo fosse, Stanislaw Ponte Preta estaria hoje inventando paródia parecida para descrever a situação econômica do Brasil depois de quatro anos da gestão Dilma Rousseff. É um verdadeiro samba do crioulo doido o que o vitorioso desta eleição vai enfrentar para recolocar as coisas no lugar. E, se as urnas confirmarem as pesquisas eleitorais, caberá à própria Dilma desfazer a desordem de seu primeiro mandato e construir e aplicar um plano de governo racional e coerente, se quiser produzir resultados satisfatórios nos quatro anos do segundo.

Faz tempo que a economia entrou em parafuso. Se a presidente não mudar o rumo e insistir na improvisação, na estúpida política de apagar incêndio, não vai construir nada e ainda arrisca destruir os ganhos sociais conquistados no primeiro mandato.

Dilma avisou que mudará o ministro da Fazenda, mas não revelou quem vai substituí-lo. Não vai ser fácil. Se ela buscar um candidato dócil e domesticado, como foi Guido Mantega, que não questione seus erros, ou procurá-lo nos quadros do PT, é melhor esquecer: a economia vai continuar estagnada, inflação e dólar em alta, investimentos em queda, falta de confiança de empresários e de consumidores agravada e o País pode mergulhar na recessão, aumentar o desemprego e reduzir dinheiro para saúde, educação, segurança e programas sociais.

E, se ela buscar outro perfil de candidato, bom formulador de políticas, nome sério, reconhecido e respeitado em ambientes econômicos, tecnicamente capacitado e com enorme desejo de acertar, com toda certeza ela terá de abrir mão do concentrado poder de interferir em tudo e dar a palavra final em tudo, como fez no primeiro mandato. Há profissionais com esse perfil, sim, e dispostos a enfrentar o desafio, mas com certeza não se sujeitarão a abençoar escolhas erradas da presidente. Só aceitarão o cargo se tiverem carta branca para fazer o que for preciso para recolocar a economia nos trilhos.

Mas não basta trazer para a Fazenda o melhor e mais competente ministro. Dilma precisa convencer-se de que fez tudo errado no primeiro mandato (derrubou o PIB; represou tarifas públicas e, mesmo assim, a inflação não baixou; desmoralizou as contas públicas; desarrumou as empresas elétricas; enfraqueceu a Petrobrás; distribuiu favores fiscais para indústrias que continuam desempregando; o BNDES fez empréstimos bilionários para empresas falidas que ficaram devendo ao banco; até hoje não acertou nas privatizações; no setor externo o Brasil tem o terceiro maior déficit de transações correntes do mundo; e até a balança comercial, que há décadas produz gordos superávits, este ano será deficitária).

Reordenar a bagunça vai exigir de Dilma humildade para reconhecer erros, coragem e determinação para corrigi-los e confiança no futuro, além de construir um programa de governo competente, consistente e seguro, capaz de atrair investidores e recuperar a confiança de consumidores e empresários em seu governo. E será preciso persistir nesse programa - não mudá-lo a todo instante, como fez nestes quatro anos - e controlar e acompanhar seus resultados. Não se trata de uma questão ideológica, mas de uma questão da lógica do capitalismo. É assim que funciona. Ou ela prefere seguir os fracassos da Venezuela e da Argentina?

No texto da música, com toda a sua maluquice, o crioulo doido conseguiu produzir algo: "A Leopoldina virou trem, Dom Pedro é uma estação também". E Dilma?

É JORNALISTA E PROFESSORA DA PUC-RIO E-MAIL: SUCALDAS@TERRA.COM.BR

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