Wolfgang Rattay/Reuters - 9/9/2019
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Gilles Lapouge
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O século 21 será ecologista ou não será

Boa parte dos obstáculos que a indústria automobilística enfrenta há alguns anos está em estreita ligação com a nova religião do mundo moderno, a ecologia

Gilles Lapouge *, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2019 | 10h56

Uma debandada: nem a Peugeot nem a Citroën estarão em Frankfurt, onde o Salão do Automóvel abre ao público nesta quinta-feira. Ausentes também estão Toyota, Fiat Chrysler, General Motors e Volvo. Até carros de luxo que pertencem a grandes grupos (Bentley, da Volkswagen ou Rolls Royce, da BMW) estarão ausentes do grande festival mundial de automóveis. “O carro alemão caiu de seu pedestal, lamentam os responsáveis do outro lado do Reno.

De fato, as indústrias automobilísticas de outros países sofrem da mesma letargia. Mas, como são menores, a queda é menor: a indústria automobilística alemã emprega 870 mil pessoas. A empresa francesa, número 2 na Europa, tem apenas 223 mil funcionários. Qual é o culpado? Não há apenas um. Eles são um grupo inteiro, o que complica o contra-ataque dos construtores.

Se houvesse apenas um, seria responsabilidade dele e num instante a indústria automobilística poderia retomar seu régio percurso. Este não é o caso. Eles saem de toda parte. Temos a impressão de uma espécie de polvo, cujos tentáculos se revezam para sufocar o carro. 

Há uma data sombria na história dessa doença. Foi em setembro de 2015, quando a Volkswagen admitiu a instalação de software para manipular as emissões de seus motores a diesel.

Havia então 11 milhões desses veículos da Volkswagen no mundo. Mas a empresa alemã era rica, próspera e poderia enfrentar o teste. A seguir, outros problemas se sucederam: distúrbios tecnológicos devoraram bilhões de euros. As guerras comerciais fizeram estragos.

Os mercados estrangeiros que alimentaram as indústrias europeias fizeram uma pausa e até mesmo recuaram. Foi o caso do enorme mercado chinês. Nós então contávamos com a Índia para garantir um revezamento com a China. Outro erro: a Índia está exausta. Em agosto, o mercado indiano entrou em colapso repentino, elevando o declínio nas compras deste país para - 41 % em um ano.

Outro duro golpe: a interminável desordem britânica com a ameaça de um Brexit difícil, ao qual foi adicionada a entrada em vigor dos tetos de emissão de CO², que impõem um grande esforço para tornar os carros elétricos. É também nesse nicho que a Volkswagen espera recuperar seu dinheiro perdido e a saúde.

Após a saída de dois gerentes gerais e a nomeação de um novo chefe, foi proposto um slogan curto, brutal e simples anunciando a era elétrica, porque estudos estabeleceram que carros híbridos (gasolina e eletricidade0 são tão prejudiciais quanto os carros tradicionais. O Salão de Frankfurt poderia marcar a entrada em uma nova fase do romance automotivo global.

Apenas note-se que boa parte dos obstáculos que essa indústria enfrenta há alguns anos está em estreita ligação com a nova religião do mundo moderno, a ecologia. Os militantes deveriam estar muito presentes no Salão de Frankfurt: o Greenpeace, Attac, a União para o Meio Ambiente e a Proteção da Natureza na Alemanha estão em pé de guerra. 

No sábado, um evento deve reunir, de acordo com especialistas, de 23 mil até 200 mil participantes. A pé, de bicicleta, eles pretendem avançar sobre a cidade com esta breve frase de ordem: “Revolução dos transportes”.

No domingo, um grupo ainda pouco conhecido, mas formidável, dizem-nos, o Sand im Getriebe, que significa “areia nas caixas de transmissão”, deve entrar na pista bloqueando as cerimônias. 

Uma amostra de sua “genialidade” foi fornecida no mês passado, 26 de agosto. Quarenta carros, bastante luxuosos (Jaguar, Land Rover, Aston Martin) foram violentamente atacados a golpes de martelo nos subúrbios de Frankfurt. Definitivamente, entendemos melhor o slogan: “O século 21 será ecologista ou não será”. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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