O segredo da transformação

Com tantas denúncias de corrupção e um governo em desarranjo, é natural pensar que estamos em momento de crise e decadência de nossas instituições. Mas há razões para lançar um olhar menos pessimista para os fatos. A situação lembra uma conversa com Gary Miller, professor norte-americano com quem tive o privilégio de trabalhar durante meu doutorado. Apesar de ter dado aula numa escola de negócios e escrito um ótimo livro sobre economia organizacional (Managerial Dilemmas), Gary é cientista político de formação. Certa vez, perguntei a ele o que considerava decisivo para a reforma das instituições e do governo dos EUA. Ele, então, disse que me contaria "o segredo".

Sérgio Lazzarini, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2015 | 02h04

Vale brevemente resgatar a história recente dos EUA. Muitos creditam o desenvolvimento norte-americano à sua origem colonial e até a fatores culturais. Porém, nas três últimas décadas do século 19, após o fim da Guerra Civil, os EUA tinham muitas características dos países emergentes atuais. A produção e o sistema financeiro eram concentrados em poucos "campeões nacionais" que davam as cartas. O magnata Cornelius Vanderbilt chegou a declarar: "As leis, o que me importam as leis? Eu já não tenho o poder?". Grupos privados clamavam por mais liberdade nos negócios, mas defendiam apoio do governo. Elevados impostos de importação encareciam preços ao consumidor. E muitas cidades eram verdadeiros antros de corrupção. Em Nova York, por exemplo, contratos superfaturados com a prefeitura irrigavam uma farta distribuição de propinas.

O que fez o país mudar? Uma forte depressão, de 1893 a 1897, seguida por um acentuado aumento do custo de vida nas cidades, gerou crescente insatisfação popular. Formadores de opinião e grupos de pressão passaram a denunciar as mazelas do modelo vigente. O Movimento Progressista, por exemplo, resultou da confluência de diversas ações difusas compartilhando o objetivo comum de reformar o Estado e impor limites à concentração econômica. Jornalistas e analistas independentes, beneficiados pela redução do custo de impressão e distribuição de notícias, passaram a expor desvios e a ligar o aumento do custo de vida à excessiva influência de grupos privados.

Neste contexto ocorreu, então, uma dinâmica que Gary me disse considerar o segredo da transformação. Muitos homens públicos passaram a ganhar notoriedade - e se beneficiar politicamente - por denunciar casos de má conduta e liderar reformas na burocracia pública. Charles Even Hughes e Joseph Folk, por exemplo, elegeram-se governadores de Nova York e do Missouri em grande parte pela reputação de terem lutado contra corruptos em seus Estados. Um dos mais expressivos nomes do Movimento Progressista, Theodore Roosevelt foi eleito governador após ajudar a reformar unidades públicas como a polícia da cidade de Nova York, na época uma das mais corruptas do país. Mais tarde, como presidente, ganhou popularidade ao usar o Sherman Act (lei antitruste promulgada em 1890) para combater cartéis e outras condutas anticompetitivas que ajudavam a sustentar preços elevados.

No Brasil atual, temos muitos ingredientes parecidos com o que eram os EUA naquela época: crise econômica e política escancarando a falência do modelo; pressão de formadores de opinião e da mídia; intensa investigação de cartéis e casos de envolvimento ilícito de grandes corporações com governos; vários órgãos independentes de investigação e julgamento; e insatisfação popular e sensibilidade do eleitor a evidências de má conduta.

É possível que essa dinâmica resulte num ciclo de transformação virtuoso (termo de Daron Acemoglu e James Robinson). Para tanto, precisamos que a pressão popular e as investigações em curso dos órgãos independentes alavanquem a carreira dos que combateram desvios e joguem ao anonimato ou para trás das grades os envolvidos e coniventes. As urnas devem recompensar não os populistas, mas os que ajudarem a reinventar o Estado. Lamentavelmente, tudo isso vem com mais de um século de atraso. Mas com boa chance de representar um ponto de inflexão histórico para o País.

*Sérgio Lazzarini é professor titular do Insper e autor de 'Capitalismo de Laços' e de 'Reinventando o Capitalismo de Estado' 

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