O segundo turno

A razão de minha escolha não é a economia nem a preferência por uma política de esquerda ou direita

Bernard Appy*, O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2018 | 04h00

Eu já fui próximo ao PT, tendo, inclusive, trabalhado no governo Lula. Afastei-me em 2009, decepcionado com os rumos que estava tomando a política econômica. Minha decepção só aumentou, e muito, com a revelação dos esquemas de corrupção e com a péssima gestão da economia no governo Dilma. Ainda assim, não vejo opção senão apoiar Fernando Haddad no segundo turno das eleições presidenciais.

Essa é uma decisão estritamente pessoal. O Centro de Cidadania Fiscal, onde trabalho, seguirá contribuindo para o aprimoramento das políticas públicas brasileiras, qualquer que seja o presidente eleito.

A razão de minha decisão certamente não é a economia. Honestamente, não tenho a menor ideia de como será a gestão da política econômica de Haddad ou de Bolsonaro. O programa de Haddad tem algumas boas propostas, mas tem pontos muito preocupantes, como a sinalização do uso de instrumentos ineficientes de intervenção governamental ou a falta de uma indicação clara de compromisso com a sustentabilidade fiscal. Em seu favor, Haddad conta com o fato de ter feito uma gestão consistente das finanças públicas quando foi prefeito de São Paulo.

O programa de Bolsonaro tem um viés mais liberal, mas é absolutamente superficial, a ponto de sugerir que irá reduzir a carga tributária, quando qualquer economista que faz contas sabe que será impossível fazer o ajuste fiscal e simultaneamente reduzir a carga tributária nos próximos quatro anos. O mais preocupante é a completa dissonância entre a prática histórica de Bolsonaro – claramente populista – e o discurso de austeridade de seus assessores econômicos, a qual foi ratificada pelo recente anúncio de que irá criar um 13.º salário para o Bolsa Família.

Tampouco acredito que o combate à corrupção e a “tudo isso que está aí” seja a questão decisiva neste segundo turno. O PT certamente não está bem na foto, mas Bolsonaro também não. Ele foi deputado federal por 27 anos, a maior parte dos quais no PP, um dos partidos mais envolvidos na Operação Lava Jato. É pouco provável que não tivesse conhecimento da forma de operação de seu partido.

A razão para minha opção nem sequer é a preferência por uma política de esquerda ou de direita (votei contra a candidata do PT nas duas últimas eleições presidenciais). É bom que haja alternância no poder, desde que as regras do jogo democrático sejam preservadas. E aí é que está o problema.

Apesar de várias escorregadas no discurso, o PT nunca teve práticas que pusessem em risco a democracia. Bolsonaro, ao contrário, questiona a legitimidade das eleições caso não seja eleito, além de reiteradamente elogiar a ditadura militar e questionar a independência da imprensa. O risco de eleger um autocrata antidemocrático é que o governo e os próprios instrumentos democráticos sejam manejados de modo a reprimir a oposição e perpetuar sua permanência no poder – padrão infelizmente observado em várias democracias frágeis.

O mais preocupante em Bolsonaro, no entanto, é o discurso de incitação à violência e o tratamento como inferiores de homossexuais, negros e mulheres, o que é a negação dos princípios liberais e democráticos mais básicos. Quais são os valores de uma pessoa cujo herói é um torturador?

Não se trata de uma característica sem consequências. O discurso de ódio de Bolsonaro legitima a intolerância violenta de parte da população, como já temos visto desde o primeiro turno das eleições e talvez vejamos de forma mais intensa se ele for eleito. Trata-se de um risco enorme num país que se encontra dividido e com os nervos à flor da pele.

Pode ser que as instituições democráticas no Brasil sejam mais fortes que as de outros países governados por autocratas. Pode ser que Bolsonaro, contrariando toda a sua história, aceite atuar estritamente dentro das regras do jogo democrático. Mas o risco de apostar nessa hipótese e estar errado é alto demais. Prefiro apoiar um candidato que, se fizer um mau governo, eu tenho certeza de que posso tirar pelo voto daqui a quatro anos.

*DIRETOR DO CENTRO DE CIDADANIA FISCAL

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