O segundo turno das eleições brasileiras: disputa acirrada

O segundo turno das eleições brasileiras: disputa acirrada

Aécio se prepara para a luta de sua vida, sabendo que nenhum segundo colocado no primeiro turno jamais conseguiu vencer o primeiro colocado no segundo turno. Mas a campanha deste ano já teve várias surpresas jamais vistas na história política brasileira

Economist.com

14 de outubro de 2014 | 09h32


SÃO PAULO -  Os observadores da emocionante eleição presidencial no Brasil estão se acostumando com as surpresas. O primeiro turno, realizado no dia 5 de outubro, trouxe algo muito inesperado, com o candidato da oposição, Aécio Neves, do partido de centro-direita, saltou de aproximadamente 20% das intenções de voto poucos dias antes da eleição para 34% da preferência dos eleitores, deixando para trás Marina Silva, uma centrista carismática que em certo momento pareceu capaz de derrotar a presidente Dilma Roussef, de esquerda. Dilma foi a mais votada com 42%, o percentual mais baixo já registrado por um candidato líder desde o reinício das eleições diretas em 1989. Ela vai enfrentar Aécio no segundo turno marcado para o dia 26 de outubro.

Assim, muitos deram pouca importância às primeiras pesquisas de intenção de voto após o primeiro turno, mostrando os candidatos quase empatados. Natural que fosse assim, levando-se em consideração o embalo recente de Aécio. Mas as pesquisas, publicadas por Datafolha e IBOPE no dia 9 de outubro, foram simplesmente históricas. Ambas mostram Aécio com 46% das intenções de voto, dois pontos à frente de Dilma. Estatisticamente, o que temos é um empate, mas pela primeira vez, o candidato líder no primeiro turno foi ultrapassado por outro antes do segundo turno.

Como o primeiro turno deixou claro, as pesquisas eleitorais devem ser tratadas com alguma cautela. A pesquisa realizada pelo IBOPE imediatamente após a votação, que teria margem de erro de apenas um ponto percentual, ficou muito longe de adivinhar o resultado: nela, Dilma aparecia 14 pontos acima de Aécio. Outras pesquisas exageram sistematicamente ao retratar o apoio à presidente: não levam em consideração as abstenções, muito mais comuns entre os brasileiros mais pobres que tendem a votar em Dilma e no Partido dos Trabalhadores.

Isso significa que Aécio é o novo favorito? 

O fato do embalo do candidato seguir aumentando é um indício promissor, mas a disputa está prestes a ficar mais difícil. Para começar, antes da votação do domingo anterior o PT tinha apontado todas as suas armas para Marina. Assim, o resultado obtido por Aécio e as pesquisas de intenção de voto mais recentes não levam em consideração os ataques que ele deve sofrer antes do segundo turno.

O primeiro de uma nova rodada de anúncios de TV, que foi ao ar no dia 9 de outubro, deu uma ideia de qual será o tom do debate. Aécio deu a impressão de candidato genérico, impulsionado pela empolgação, mas com pouco de concreto a apresentar. O PT, em comparação, lançou mão de uma eficiente mistura de autoelogios, denúncias e discurso do pânico, repleta de números mostrando como o Brasil melhorou sob o governo do PT, no poder durante os 12 anos mais recentes, em relação ao período anterior, de 1995-2002, sob o comando do Partido da Social-Democracia Brasileira, de Aécio. Os números compararam o desemprego atual - o menor da história -, a inflação e os juros sob o governo de Dilma à situação presidida pelo mentor político de Aécio, Fernando Henrique Cardoso.

A tática, de eficiência comprovada, dá uma impressão errada, pois Cardoso teve de enfrentar uma economia afetada pela hiperinflação (que ele eliminou) e falta de competitividade (cujas reformas dele ajudaram a melhorar). Mas o resultado é claro: 56% dos brasileiros acreditam que Dilma é quem melhor representa os interesses dos pobres, número mais de duas vezes maior ao daqueles que dizem o mesmo de Aécio.

 Um comentário recente feito por Cardoso, sociólogo culto, dizendo que muitos votaram no PT porque estariam "desinformados" em relação aos fracassos de Dilma (como a recessão que teve início no Brasil no segundo trimestre do ano), não ajudou. "Para FHC, os 43,2 milhões de eleitores de Dilma são ignorantes", caçoou o anúncio do PT, valendo-se da reputação do PSDB de partido elitista.

A luta de classes poderia ficar menos intensa depois que Marina, filha de seringueiros pobres da Amazônia, declarou explicitamente seu apoio a Aécio. Esperava-se que ela o fizesse no dia 9 de outubro, mas a decisão foi adiada até que ele adotasse na prática todo o manifesto da ex-candidata. Não ficou claro se isso é uma tática de negociação ou um ultimato quixotesco - possibilidade que não pode ser excluída, levando-se em consideração as convicções irredutíveis de Marina. Defensora de uma "terceira via" entre PT e PSDB, ela se viu em posição difícil: apoiar Aécio passa a impressão de ter se vendido; se não o fizer, dará a impressão de vingativa. As novas pesquisas mostram que quase três quartos dos eleitores dela optariam por Aécio no segundo turno mesmo sem uma declaração explícita de apoio. Mas, numa disputa tão equilibrada, isso poderia fazer a balança pender a favor dele.

Já com o apoio de Marina, Aécio faz uma ofensiva terrestre para rebater a guerra aérea do PT. Os principais nomes do PSDB têm telefonado a prefeitos de todo o país para incentivar o apoio ao seu candidato. Muitas das lideranças políticas municipais desprezam Dilma por ter delegado mais responsabilidade aos municípios enquanto reduzia seu orçamento. A decisão deste grupo de apoiar Aécio, tomada na última hora, pode explicar o resultado surpreendente do candidato no primeiro turno. Ele também explora as investigações ainda em andamento envolvendo um esquema de corrupção na gigante estatal do petróleo, Petrobras, que teria beneficiado o PT e alguns aliados de sua coalizão (as alegações de envolvimento são negadas por todos os citados).

Enquanto isso, há cismas surgindo entre os partidários de Dilma. A bancada do PMDB no congresso, principal componente de sua base de apoio, comenta sobre uma possível mudança de lado - independentemente do fato de seu líder, Michel Temer, ser o candidato à reeleição como vice-presidente. Não seria a primeira vez que o partido toma tal decisão. Em 2002, o PMDB, que participava do governo de FHC e tinha a vaga de candidato à vice-presidência com o PSDB naquele ano, decidiu apoiar o antecessor e mentor de Dilma, Luis Inácio Lula da Silva, entre o primeiro e o segundo turnos. Muitos governadores e candidatos a governador do PMDB, como no Rio de Janeiro, terceiro estado mais populoso do país, já declararam abertamente seu apoio a Aécio, independentemente da orientação do partido.

Enquanto Aécio se prepara para a luta de sua vida, ele terá plena consciência de que nenhum segundo colocado no primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras conseguiu vencer o primeiro colocado no segundo turno. Mas, numa campanha marcada por tantas surpresas, talvez a história não sirva de guia.


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Da Economist.com, traduzido por Augusto Calil, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado no site www.economist.com

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