André Feltes/Estadão
André Feltes/Estadão

‘O sentimento é de que está cada vez mais difícil’

Sem data para receber, professora gaúcha precisa pegar dinheiro adiantado no banco estatal e depois pagar juros

Mariana Hallal e Rayssa Motta, especiais para o Estado, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2019 | 04h00

Professora no Rio Grande do Sul há 38 anos, Angela Gazzana, de 62 anos, é um dos 328,8 mil servidores do Estado que sofrem para receber desde 2015. “Começou com parcelamento, depois atraso, agora é uma coisa que não dá nem para explicar”, diz.

Única fonte de renda da casa, ela sustenta, além de si, um filho universitário e o marido, que precisou parar de trabalhar por problemas de saúde. Sem data certa para receber, pede adiantamento de salário ao Banrisul desde maio do ano passado. Todo mês, 0,98% do salário vai diretamente para o banco estatal em forma de juros.

“Não parece muito, mas é revoltante pagar juros sobre o teu próprio salário para o Estado que não te paga”, afirma. “Sem isso (adiantamento), a gente não come.”

Angela é diretora da escola estadual General Daltro Filho, em Porto Alegre, há 13 anos. Por isso, acompanha a situação dos outros professores de perto. “O sentimento geral é de que está cada vez mais difícil. Alguns colegas não têm mais dinheiro nem para pegar ônibus.”

Nesses últimos anos, ela viu outros professores reduzirem sua carga horária no Estado e buscarem emprego nas redes municipal e privada de ensino. “Me lembro de dois casos assim. Com certeza a questão salarial pesou para essa decisão.”

Alívio

Enquanto isso, no Rio de Janeiro, único Estado que já está no programa desenhado pelo governo federal para socorrer aqueles que estão em situação de emergência fiscal, a regularização do pagamento dos salários foi um alívio para 466 mil servidores. 

Desde abril do ano passado, os funcionários do Estado vêm sendo pagos em dia. 

O agente penitenciário Iranildo Oliveira de Lima, de 40 anos, que integra o quadro de servidores fluminense há oito anos e meio, estuda agora a possibilidade de comprar uma casa própria – projeto que havia adiado por causa dos atrasos de pagamento.

Nos piores anos da crise fiscal do Rio, Lima só conseguiu manter as contas em dia com a renda de um segundo emprego em uma loja de roupas. “(À época), a gente não tinha estímulo para ir trabalhar. Chegava o final do mês, você nunca sabia se ia receber. Tinha a promessa de pagamento em um dia, esse dia chegava, e o salário não vinha. Aí o governo empurrava mais”, lembra. “Quando começaram a parcelar o pagamento foi horrível, você não tinha o dinheiro na sua mão.” 

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