O significado de ''tempestivamente''

Algumas palavras ganham, ao longo do tempo, significado diverso daquele que lhe deu origem. Algo parecido está acontecendo com a palavra "tempestivamente", que vem sendo utilizada com freqüência pelo Banco Central em seus comunicados. Na última quarta-feira, por exemplo, o Comitê de Política Monetária (Copom) anunciou a elevação da taxa básica de juro (a Selic) de 12,25% para 13% ao ano, "com vistas a promover tempestivamente a convergência da inflação para a trajetória de metas".Uma parte do mercado ficou se perguntando o que significava o termo "tempestivamente" usado pela autoridade monetária. O dicionário informa que tempestivamente é o que vem ou sucede no tempo próprio, oportuno. Não parece ser este o significado que o Copom quis dar, pois avaliar e definir qual é o "tempo próprio" ou "oportuno" para a convergência da inflação com a trajetória de metas parece algo subjetivo.Alguns entenderam que "tempestivamente", neste caso, seria sinônimo de "rapidamente". Ao aumentar o aperto monetário, o BC teria abandonado a estratégia gradual e manifestado a sua intenção de agir de forma mais drástica no combate à inflação, forçando "rapidamente" a convergência da inflação para a trajetória de metas. Como todos sabem, a inflação deste ano ameaça romper o teto da meta, que é de 6,5%. O centro da meta é de 4,5%, com um intervalo de tolerância de dois pontos para cima ou para baixo.O significado "adequado" da palavra foi revelado pelo próprio presidente do BC, Henrique Meirelles, em seminário do Conselho das Américas, realizado no dia 10 de julho. Antes, portanto, da reunião do Copom. Em seu discurso, Meirelles disse que o BC já vem atuando e continuará a agir de forma a trazer a inflação de volta ao valor central da meta de 4,5% "de forma tempestiva". Ele explicou o significado da expressão: "Isto é, já em 2009".Portanto, quando afirma que a elevação da taxa de juro tem por objetivo promover "tempestivamente" a convergência da inflação para a trajetória de metas, o Copom quer dizer que atua para alcançar o centro de 4,5% da meta já em 2009. A dúvida que fica é por que o BC precisou reafirmar essa diretriz, uma vez que a meta de inflação fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) para o próximo ano é de 4,5% - e isso ainda não foi alterado.Há cerca de três meses, trava-se uma luta, nos bastidores do governo, sobre qual a melhor maneira de enfrentar o atual surto inflacionário. O debate inicial foi sobre a natureza da inflação e sua intensidade. O Ministério da Fazenda defendia a tese de que a inflação decorria, principalmente, da elevação dos preços dos alimentos, em conseqüência de um choque das commodities agrícolas e do petróleo.O BC alertava para o fato de que a demanda interna estava muito aquecida e o consumo das famílias crescia a taxa superior a 8%, o que permitia o repasse das pressões localizadas de preços para toda a economia. Por causa desse diagnóstico, o BC queria agir de forma preventiva.O Ministério da Fazenda, no entanto, acreditava que as pressões inflacionárias poderiam ser passageiras e debeladas por um desaquecimento espontâneo da atividade econômica. Para a Fazenda, uma ação preventiva do BC, com a elevação da taxa de juro, prejudicaria o forte fluxo de investimentos produtivos que estava ocorrendo no País. Era preciso, de acordo com esse entendimento, esperar que a aceleração inflacionária se materializasse plenamente, antes de elevar a taxa de juro.O BC argumentava que, se atuasse preventivamente, o aperto monetário seria mais rápido, com menor impacto sobre a economia e menor custo para a sociedade. Meirelles venceu a discussão e elevou a taxa de juro.Depois de seguidas reuniões com o presidente Lula, a equipe econômica unificou o discurso. O BC passou a considerar o choque externo de preços em sua argumentação sobre a inflação e o Ministério da Fazenda concordou que a demanda deveria ser controlada por meio da elevação da taxa de juro, como forma de evitar que aumentos localizados de preços se disseminassem por toda a economia.A Fazenda terminou por aceitar também um aumento do superávit primário de 3,8% para 4,3% do Produto Interno Bruto (PIB), como forma de evitar elevações mais fortes da taxa de juro. A idéia de utilizar o excesso de arrecadação para comprar mais dólares no mercado interno, por meio do Fundo Soberano do Brasil (FSB), e com isso evitar uma maior valorização do real, foi temporariamente arquivada em benefício da elevação do superávit primário.O embate passou a ser, então, em torno do prazo para a convergência da inflação para o centro da meta, tendo em vista o choque externo de grande proporção. A Fazenda argumentava que seria mais razoável que essa convergência ocorresse até 2010. Com isso, o combate à inflação seria mais gradual e o aperto monetário menos rigoroso. Nas discussões internas, o BC alertava para o risco de que uma deterioração ainda maior das expectativas inflacionárias elevasse o custo da política monetária no futuro, com maior redução do crescimento. O presidente Lula acolheu, mais uma vez, os argumentos de Meirelles e a convergência para o centro da meta será feita "tempestivamente". Isto é, já em 2009.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.