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O soluço da inflação

Esta foi uma inflação de custos, cujo epicentro foi a disparada dos preços das carnes

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

10 de janeiro de 2020 | 19h15

A inflação de dezembro foi mais um soluço do que a indicação de novo desequilíbrio entre consumo e oferta de produtos. Mas seu impacto não pode ser desprezado.

O avanço de 1,15% de um único mês correspondeu a um terço da inflação acumulada nos 12 meses anteriores. E puxou os números finais de 2019 para a altura dos 4,31%, bem superior aos 3,8% que vinham sendo previstos ao longo das últimas semanas do ano.

Esta foi uma inflação de custos, cujo epicentro foi a disparada dos preços das carnes que, por sua vez, foi consequência do aumento das exportações para a China, duramente atingida pela quebra da produção local pelo alastramento da peste suína. Tanto a inflação de dezembro é um ponto fora da curva, que os dados instantâneos da Fundação Getúlio Vargas já apontam para um recuo acentuado dos preços das carnes na primeira semana de janeiro. 

Outra indicação que aponta para a mesma direção é o fato de que os núcleos da inflação (dos quais se excluem os preços dos alimentos e dos combustíveis) apontaram para dezembro um avanço de apenas 0,45%. Não houvesse esse choque da carne, a alta do mês não teria sido superior a 0,7%.

Essas ponderações, no entanto, não eliminam as consequências. Uma delas, mais psicológica do que real, tem impacto nada desprezível. Trata-se do avanço da inflação anual de 2019, os tais 4,31%. Apesar de tudo quanto se fez para esvaziar a força da indexação automática (correção monetária) dos preços, esses 4,31% serão evocados para um sem-número de reajustes acima dos esperados que acabarão por realimentar a inflação.

O outro impacto acontece no retorno das aplicações financeiras. Os juros básicos estão a 4,5% ao ano. Uma inflação anual de 4,31% quase eliminou o rendimento real das aplicações em renda fixa, das quais terão de ser subtraídos também o Imposto de Renda e as taxas de administração. Feitas as contas, o aplicador desse segmento do mercado perdeu mais dinheiro do que inicialmente imaginava. Nessas horas, pouco funciona o argumento de que não cabem projeções feitas de olho no retrovisor e que é preciso trabalhar com a inflação futura. O problema é que as previsões da inflação também estão sujeitas a trancos inesperados de custos, como as de 2019. Esse é um fator que continuará empurrando para a renda variável aqueles que têm uma reserva para defender contra a perda de valor.

Outro ponto é o efeito sobre a política monetária. Cerca de metade dos analistas vinha prevendo nova redução dos juros básicos (Selic), a ser decidida na próxima reunião do Copom, agendada para 5 de fevereiro. A nova queda da produção industrial em novembro (recuo de 1,2%) deve ter reforçado essa aposta. Como fica isso?

A meta de 2020 (inflação de 4,0%) não está sob risco. Como se viu, esse aumento da inflação do mês passado não está relacionado com acirramento de uma demanda por bens e serviços que precise de correção. Em princípio, não exige corretivo da política de juros. Ainda assim, parece mais provável que o Banco Central prefira esperar para ver como se acomodam os preços antes de voltar a derrubar os juros.

CONFIRA

» Juros e câmbio

A derrubada dos juros internos foi o principal fator que provocou saída líquida de US$ 44,8 bi de moeda estrangeira em 2019 – e não a perda de confiança. Para os especuladores, deixou de valer a pena trazer dólares para aplicar em renda fixa no Brasil e tirar proveito dos juros altos. Para evitar que a sangria tivesse maior impacto no câmbio, o Banco Central vendeu US$ 36,9 bi das reservas externas. O índice de risco Brasil medido pelo CDS5 continua nos níveis mais baixos desde 2010, como mostra o gráfico.

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