O sucessor de Tombini

Com o nome de Henrique Meirelles dado como praticamente certo para comandar o Ministério da Fazenda, as atenções voltam-se para a escolha de um novo presidente do Banco Central, substituindo Alexandre Tombini.

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2016 | 05h00

Os investidores tentam antecipar se o sucessor de Tombini será um falcão ou um pombo. No jargão do mercado financeiro, o falcão representa um banqueiro central mais austero no combate à inflação e inclinado ao aperto, enquanto o pombo é mais propenso a cortar a taxa de juros ou, no mínimo, hesita mais em elevá-la.

Não é à toa a obsessão do mercado com a lista de candidatos a presidente do BC. Isso porque analistas e investidores apostam numa queda dos juros básicos no segundo semestre deste ano, diante da contração na atividade econômica, com aumento do desemprego e aperto no crédito, levando a uma desaceleração da inflação. Na mais recente pesquisa Focus, do BC, a projeção é de que a taxa Selic encerre 2016 a 13,25%. A discussão do momento é se o novo presidente do BC será mais austero e resistirá a cortar os juros no curto prazo, consolidando antes uma queda mais significativa nas estimativas de inflação, ou se vai corroborar as apostas de analistas e investidores para a trajetória da Selic até o fim deste ano.

À medida que o nome de Meirelles se tornou o mais provável para chefiar a Fazenda, os candidatos mais cotados para suceder Tombini fazem parte de uma lista muito seleta: a dos economistas que ocuparam a diretoria de Política Econômica durante a gestão de Meirelles como presidente do BC, entre janeiro de 2003 a dezembro de 2010. Foram eles, por ordem cronológica: Ilan Goldfajn, Eduardo Loyo, Afonso Bevilaqua, Mario Mesquita e Carlos Hamilton Araújo.

De forma superficial, o mercado tem reagido às especulações sobre os nomes dessa lista com base na face pública dos candidatos. Goldfajn, que é o economista-chefe do banco Itaú Unibanco, tem sido colocado no campo dos “pombos”, pois, em seus relatórios, projeta um corte de 2 pontos porcentuais dos juros até o fim deste ano, para 12,25%. É um raciocínio falho, pois não se pode comparar projeções macroeconômicas feitas na Avenida Brigadeiro Faria Lima (centro financeiro de São Paulo) com a responsabilidade de conduzir a política monetária em Brasília. Da mesma forma que Mario Mesquita, sócio do banco Brasil Plural, é contabilizado no campo dos “falcões”, por declarações teoricamente mais austeras sobre o combate à inflação. Há quem não descarte na bolsa de apostas o nome de Carlos Kawall, ex-secretário do Tesouro.

A realidade é que não há diferença substancial em termos de postura, ao menos na condução da política monetária, entre aqueles ex-diretores de Política Econômica do BC. Não há uma diferença suficiente para separá-los entre falcões e pombos. Mais importante do que definir uma aposta sobre os próximos passos para os juros será a capacidade de um eventual governo Michel Temer em conseguir uma trajetória mais crível, consistente e austera da política fiscal, pois isso é que terá um impacto maior sobre o câmbio e as expectativas inflacionárias.

Esses cinco candidatos ao comando do BC, conforme a bolsa de apostas do mercado, pensam de forma relativamente parecida. Talvez um deles possa cortar juros em uma reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) antes do previsto, enquanto outro, uma ou duas reuniões depois. Mas a direção da política monetária será praticamente idêntica. A única diferença entre os nomes cogitados é o fato de Carlos Hamilton ter feito carreira no Banco Central, enquanto os outros vêm do mercado financeiro. Será igualmente importante ver a nova composição do Copom: dificilmente os atuais oito membros do comitê seguirão no cargo nos próximos meses. As substituições de alguns deles devem acontecer aos poucos. Resta saber se o Copom terá mais falcões ou mais pombos.

*É colunista do Broadcast, serviço de informações da Agência Estado

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