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O sucessor de Yellen

Especulação sobre quem comandará o Fed a partir do ano que vem já está no radar dos investidores

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

19 Julho 2017 | 05h00

O mandato de Janet Yellen à frente do Federal Reserve (Fed), o banco central americano, acaba em janeiro do ano que vem, mas a decisão do presidente Donald Trump sobre quem ocupará o cargo a partir de então começará a influenciar o valor do dólar muito antes disso.

A especulação sobre quem comandará o Fed já entrou no radar dos investidores não apenas nos Estados Unidos, como também no resto do mundo.

À medida que a bolsa de apostas passe a se concentrar em poucos candidatos – um ou dois aspirantes ao cargo –, o dólar poderá recuperar o fôlego e engatar uma valorização ou, o que é mais provável na fotografia de hoje, entrar numa trajetória mais duradoura de fraqueza frente às principais moedas internacionais, inclusive o real.

Não está descartada completamente a recondução de Yellen ao cargo. Durante a campanha presidencial de 2016, Trump criticou duramente a atual presidente do Fed, mas desde que tomou posse, o republicano parou de disparar sua metralhadora verbal contra ela. Aliás, em abril passado, houve relatos na imprensa de que Trump, na sua retórica anêmica, chegou a dizer que considerava Yellen “uma pessoa de juros baixos” como ele próprio.

Mas a manutenção de Yellen no cargo não é hoje o cenário com que a maioria dos investidores trabalha. O candidato mais forte na bolsa de apostas é Gary Cohn, um ex-diretor do banco Goldman Sachs que agora é o principal assessor econômico da Casa Branca. Trump encarregou Cohn de procurar um sucessor para a presidência do Fed, mas vários analistas dizem que Cohn vai se apresentar como o candidato ideal.

A sucessão no Fed assume maior importância na conjuntura atual da política monetária nos Estados Unidos. O banco central americano já elevou a taxa básica de juros três vezes desde dezembro passado. Yellen já alertou que, além da alta dos juros, o Fed começará “relativamente em breve” a retirar os estímulos injetados na economia dos Estados Unidos desde a crise financeira mundial de 2008. O plano é reduzir o volume de ativos no balanço patrimonial do Fed num montante equivalente a US$ 300 bilhões nos primeiros 12 meses desse processo. O Fed também projeta uma elevação adicional dos juros ainda neste ano.

A combinação de uma redução no volume de ativos, o que resultaria num aperto das condições financeiras da economia, e de mais uma alta da taxa básica de juros levaria a uma valorização maior do dólar frente às principais moedas internacionais. Mas o mercado financeiro, por enquanto, acredita que o Fed levará adiante apenas a redução do seu balanço patrimonial, e não vai elevar os juros mais uma vez em 2017.

Isso porque a inflação americana vem se desacelerando de forma surpreendente e ficando cada vez mais longe da meta do Fed, de uma taxa anual de 2%. Yellen até agora vem batendo o pé e dizendo que a fraqueza na inflação é decorrente de fatores transitórios. Os investidores rebatem que a economia americana já está no pleno emprego, com a taxa de desemprego de 4,4% em junho, e os preços ao consumidor seguem perdendo fôlego, subindo 1,6% em 12 meses até junho em comparação com avanço de 1,9% em maio. Não surpreende, portanto, que os contratos futuros de juros embutam uma probabilidade abaixo de 50% de o Fed elevar a taxa básica mais uma vez em 2017.

Nesse cabo de guerra entre Yellen e o mercado, o desequilíbrio de forças poderá vir de uma decisão de Trump sobre o novo presidente do Fed no ano que vem. Também em abril passado, o republicano disse em uma entrevista que o “dólar estava ficando forte demais”.

Se decidir substituir Yellen e escolher alguém mais alinhado com seu pensamento no comando do banco central americano, Trump poderá afetar a curva de juros nos Estados Unidos e no mundo, com reflexos no valor do dólar.

Em tese, um aperto da política monetária americana bem mais gradual do que o inicialmente esperado pelo mercado contribui para um dólar fraco. E, no Brasil, o reflexo disso é a tendência de o real se manter nos níveis atuais ou até mais apreciado.

*COLUNISTA DO BROADCAST

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