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O sufoco das classes médias

Especialistas têm pesquisado o alastramento do ressentimento entre os nem ricos nem pobres, mas estudo da OCDE foi o mais abrangente até agora

Celso Ming e Guilherme Guerra, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2019 | 21h00

Há alguns anos os especialistas vêm estudando o alastramento em escala global do ressentimento entre as classes médias.

É fenômeno econômico e social com enormes repercussões políticas. Elegeu Donald Trump nos Estados Unidos, está na base do Brexit, apoiou governos conservadores na Europa Central, explica a forte mobilização dos coletes amarelos na França, é a razão de movimentos xenófobos contra imigrantes e também tem a ver com a eleição de Jair Bolsonaro.

Algumas análises vinham sendo publicadas por especialistas, como Homi Kharas, do Brookings Institute. Mas nenhuma delas foi mais abrangente do que a OCDE, que acaba de divulgar o estudo Under pressure: the squeezed middle class (Sob pressão: a classe média espremida, em tradução livre).

Esse trabalho de 174 páginas mede as perdas de renda das classes médias, avança para as consequências desestabilizadoras do fenômeno e apresenta algumas propostas de política econômica para tentar reverter esse jogo.

Uma classe média próspera, longe do sufoco das dívidas e do pagamento de suas contas mensais, é a base para o crescimento sustentável de um país. Ela ajuda outras camadas sociais a defender o Estado de bem-estar social, na medida em que é fonte permanente de reivindicações que visam a melhora de qualidade da educação, da saúde e da habitação.

É uma classe média pujante que também garante a saúde das instituições políticas nas sociedades democráticas. Ela ampara a luta contra a corrupção e o surgimento de pequenas e médias empresas. Enfim, ajuda a rodar a economia e os sistemas de distribuição da riqueza e, assim, desempenha na sociedade a função polinizadora das abelhas. “O crescimento econômico é mais forte em países onde a classe média é forte”, observa o documento.

A asfixia das classes médias extrapola a falta de representação política. Parcelas importantes das classes médias tiveram sua renda estagnada desde 2008 (casos da França, Dinamarca, Reino Unido e Portugal); ou reduzida (como na Grécia, México, Espanha, Japão e Itália); ou teve avanço abaixo da média verificada em décadas anteriores (casos do Canadá e da Nova Zelândia). As exceções disparadas aconteceram na China, na Índia e no Chile.

Por trás do empobrecimento das classes médias estão o aumento do desemprego e o da migração de fábricas para a Ásia e para a Europa Oriental. Também, o encarecimento da educação e dos tratamentos de saúde, enquanto a renda foi sendo achatada por mais impostos e pela redução de salários.

Estudiosos já haviam identificado nessa situação campo fértil para proliferação de propostas populistas e antidemocráticas. E hoje se nota alastramento do ponto de vista de que o sistema liberal é injusto e produtor de insegurança.

O que fazer? A OCDE sugere que tal insatisfação seja revertida com reformas tributárias que melhorem a distribuição de renda, como maior taxação dos ganhos de capital, das heranças dos mais ricos e da propriedade. E que se aumentem incentivos à construção de habitações de baixo custo, investimentos no sistema público de saúde e em reformulações educacionais que preparem o trabalhador para o futuro com tecnologia.

O diabo é que a maior parte dos Estados também está asfixiada em dívidas e em rombos fiscais. Mas isso não é objeto deste trabalho da OCDE.

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