AFP PHOTO / MANDEL NGAN
AFP PHOTO / MANDEL NGAN

O surfe de Trump

Apesar de controverso, presidente dos Estados Unidos convence o norte-americano médio e não é só no campo político

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

20 Junho 2018 | 20h30

Por alguns, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é considerado um desequilibrado. Por outros, um narcisista que não se assume como guardião da ordem geopolítica global e prefere desdenhar os interesses democráticos para colocar em primeiro lugar os próprios – e não necessariamente os dos Estados Unidos.

Mas o desempenho de Trump satisfaz o cidadão médio dos Estados Unidos. As pesquisas divergem pouco nos resultados. Já ultrapassados os primeiros 500 dias de mandato, o Instituto Gallup registra que Trump é um campeão de popularidade em seus apoiadores. Nesse prazo só não conseguiu ser mais popular do que George W. Bush. Obteve 87% de aprovação, ante 96% de Bush (veja tabela). Outra pesquisa, também do Gallup, apontou 45% de aprovação entre todos os americanos.

Trump chegou a desautorizar publicamente um chefe de Estado de país aliado, como aconteceu com o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, na reunião deste mês do Grupo dos Sete (G-7), realizada no Canadá.

Seus assessores mais próximos e secretários de governo não conseguem encaminhar qualquer agenda pré-acertada, porque a todo momento Trump toma decisões intempestivas, como durante as negociações com o ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un.

O desmonte que está impondo à Organização Mundial do Comércio, instituição patrocinada pelos Estados Unidos e destinada a ser o xerife do comércio mundial, e o desrespeito às regras do comércio mundial tendem a implantar um faroeste nas relações internacionais de troca. A guerra comercial declarada à China e seus parceiros do Nafta deverá produzir graves estragos no comércio mundial e na economia global.

Mas, para o cidadão americano médio, Trump é o cara, é finalmente o peitudo capaz de impor limites no processo de dizimação de empregos e de salários provocada pela concorrência – que dizem desleal – e pela imigração ilegal.

Há, sim, a brutalidade imposta às famílias dos mexicanos, que separa as crianças dos pais. Mas, resmungam por lá, não se pode pretender soluções ideais quando se quer preservar a lei e, naturalmente, os direitos dos cidadãos americanos.

As empresas se incomodam com as interferências nas cadeias globais de produção e distribuição, mas adoraram a decisão de cortar impostos, o que aumenta a competitividade dos seus negócios.

A alta aprovação não vem apenas do desempenho político de Trump. Também é fortemente alavancada pelo robusto desempenho da economia dos Estados Unidos. Tudo seria diferente se a atividade produtiva não estivesse bombando, se o mercado de trabalho não vivesse a atual fase de pleno-emprego, se a inflação estivesse disparando e se essas políticas tivessem provocado algum desastre nas relações dos Estados Unidos com o resto do mundo.

São duas as principais consequências para essa manifestação do cidadão médio dos Estados Unidos. Primeira, se esse estado de espírito continuar, Trump já terá dado passo importante para se reeleger em 2020. E, segunda, o resto do mundo terá de engolir os impactos do novo jogo. Quem defender o impeachment do homem nessas condições está exposto ao suicídio político.

CONFIRA

» O recado do Copom

A novidade da reunião do Copom realizada nesta quarta-feira não foi a decisão de manter os juros básicos em 6,50% ao ano, apesar da alta do dólar. A novidade foi a reafirmação de que, na condução da política monetária, o Banco Central não olha para o movimento do câmbio. Olha para os efeitos secundários da alta do dólar sobre a inflação. A decisão é esperar para ver. O cumprimento da meta, de 4,5%, não está ameaçado, apesar dos efeitos da greve dos caminhoneiros e do aumento das incertezas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.