Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

O tamanho da encrenca

Estamos diante de um megachoque de preços, só comparável ao que ocorreu em 2002, no rastro do faniquito que o mercado financeiro teve com a iminência da eleição de Lula

Luís Eduardo Assis*, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2021 | 05h00

Um dos aspectos extravagantes da economia em 2020 foi a coincidência entre forte aumento no preço internacional das commodities e expressiva desvalorização cambial. Em 15 dos últimos 20 anos, quando um desses preços subiu, o outro veio para baixo. No ano passado, o preço das commodities denominado em reais subiu nada menos que 72%, sendo 33,5% de alta nas commodities e 28,9% de desvalorização cambial. A variação anualizada bateu 116% em fevereiro de 2021 e recuou para ainda expressivos 53% em julho.

Estamos diante de um megachoque de preços, só comparável ao que ocorreu em 2002, no rastro do faniquito que o mercado financeiro teve com a iminência da eleição de Lula. Naquele ano, os preços das commodities em reais subiram 74%, puxados pelo encarecimento da moeda americana (52,3%) e, em menor grau, pelo aumento das commodities em dólar (14,2%).

Choques de preço dessa magnitude têm um impacto devastador numa economia indexada como a nossa. Em vários aspectos, foi mais fácil lidar com o problema em 2002. O Banco Central elevou a taxa Selic para 26,5% no começo de 2003, no rastro de uma inflação de 12,5% no ano anterior. Já antes, o novo governo havia beijado a cruz da ortodoxia econômica, o que ajudou a promover uma queda do dólar de 18,2% em 2003. O PIB, que tinha crescido 3% em 2002, avançou apenas 1% em 2003, o que fez a taxa de desemprego passar de 11,7% para 12,3%. Era início de mandato, época propícia para fazer maldades. Deu certo no final. A Bolsa subiu 295% no primeiro mandato de Lula e o mercado festejou.

Desta vez é diferente. O ponto de partida é uma recessão histórica, que deixou quase 15 milhões de desempregados. Ao invés de um governo capaz de convencer o mercado, temos agora uma pauta caótica em que a agitação do Ministério da Economia (e “agitar-se não é agir”, já dizia Guimarães Rosa) divide espaço com a estratégia desatilada do presidente, perdido na guerra louca do Absurdistão. Na falta do que fazer, o Banco Central sobe os juros.

Há quem pense que a formação de preços depende de expectativas que acenem, lá do horizonte longínquo, que, se os reajustes de preços não forem moderados, os juros serão ainda mais altos. Menos vaporosa é a constatação de que juros mais altos simplesmente seguram a recuperação da economia, o que impede a inflação de desgarrar de vez, mas piora o combate ao desemprego e avulta a crise política patrocinada por Bolsonaro.

Para quem gosta, resta rezar. Melhor uma novena dupla. Uma para que os preços das commodities cedam nos mercados internacionais. Houve um certo refluxo a partir do pico em maio, mas as commodities ainda estão acima do nível da virada do ano. A outra novena é para o dólar se desvalorizar, como ocorreu em 2003. Aqui o santo tem de ser forte.

Modelo econométrico baseado em cerca de 600 observações diárias a partir de 2019 mostra que três variáveis podem explicar 87,7% das variações do dólar: a cotação do CDS, o preço das commodities agrícolas e o diferencial de juros de seis meses entre Brasil e EUA. A cotação do dólar indicada por esse modelo seria hoje algo como R$ 4,80. Pode-se cogitar que a diferença entre a cotação real e aquela sugerida pelo modelo só pode ser explicada pela ziquizira que vitima nosso presidente, exasperado por provocar uma crise política de proporções épicas.

O quadro está montado. A fé delirante de Paulo Guedes não remove montanhas e o mercado deve se preparar para embates entre Bolsonaro e o Banco Central, que cedo ou tarde virão. O choque de 2020 nos pegou nas mãos ineptas de um presidente a quem falta a “astúcia meandrosa” de outros tempos (é Guimarães Rosa, de novo).

*ECONOMISTA, FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL E PROFESSOR DE ECONOMIA DA PUC-SP E DA FGV-SP. E-MAIL: LUISEDUARDOASSIS@GMAIL.COM 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.