REUTERS/Mike Segar
REUTERS/Mike Segar

O terremoto

As expressões fortes tentam explicar somente como foi avaliada a vitória do empresário Donald Trump, mas não explicam as forças que a produziram

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

09 Novembro 2016 | 22h00

É isso aí. O cara da foto abaixo, considerado pelo presidente Obama como “altamente (woefully) despreparado” para o cargo a que se candidatou, vai ficar no comando do botão da bomba atômica.

O uso de expressões fortes para tentar explicar o que aconteceu, como tsunami, terremoto, furacão, transmite apenas como foi avaliada a vitória do empresário Donald Trump. Mas não explica as forças telúricas que a produziram.

O eleitor de Trump não se sente apenas insatisfeito. Ele se sente passado para trás, com a percepção de que tem gente metendo demais a mão no seu prato. E usou o voto para manifestar esse estado de espírito. É mais ou menos a percepção daqueles que produziram o Brexit ou que vêm apoiando líderes nacionais populistas na França, Áustria, Espanha, Hungria e Polônia.

Trata-se de nova onda mundial contra a globalização, contra o livre-comércio, contra o fluxo de fábricas, de capitais e, obviamente, de gente. Os Estados Unidos, potência construída em grande parte pelos imigrantes, agora os querem expulsar.

A origem dessa aversão está relacionada com o desenvolvimento econômico recente da China, Coreia do Sul, Taiwan e outros tigres. Eles vêm incorporando cerca de 30 milhões de asiáticos por ano ao mercado mundial de trabalho e de consumo que levam como contrapartida o despacho de produtos industrializados para os países de economia avançada.

Mas não se pode ficar apenas com esse foco. Em apenas três gerações, metade da população mundial, as mulheres, antes alijadas do mercado de trabalho, também passaram a competir por emprego com a população masculina. São enormes conquistas inclusivas que, no entanto, se consumaram em pouco tempo. Daí as consequências.

Trump é um arrivista tanto no exercício da política como em administração pública. Chegou aonde chegou da noite para o dia, com um discurso contra o establishment. Desse ponto de vista, a manutenção do controle do Partido Republicano no Senado e a obtenção de maioria na Câmara dos Representantes não contam necessariamente como ampliação de força. Ele se elegeu contra esses interesses, pouco se importando com atitudes e expressões politicamente corretas.

Depois do pronunciamento de teor conciliatório do eleito, os analistas se revezaram na observação de que as instituições democráticas dos Estados Unidos são suficientemente sólidas para impedir que um despreparado cometa loucuras.

Mas Trump não é apenas Trump. Trump são os 59 milhões de americanos que votaram nele e que agora cobrarão o prometido. Mas é duvidoso que conseguirá aumentar o muro na fronteira sul, ou trazer de volta as indústrias para o Cinturão da Ferrugem, ou, ainda, garantir futuro melhor para os filhos dos seus eleitores. E muito dificilmente conseguirá acabar com o Obamacare, o serviço público de saúde para a população de baixa renda.

O emprego, como o conhecemos, é bicho em extinção; a população mundial vai envelhecendo; as despesas públicas estão galopando; e Trump terá dificuldades para reduzir impostos, como garantiu.

Aconteça o que acontecer, é assim que caminha a humanidade – como ensinaram James Dean, Liz Taylor, Rock Hudson e John Wayne naquele inesquecível filme de 1956.

Confira

Embora a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos tenha aumentado os focos de incerteza na economia mundial, o Banco Central do Brasil passou a ter mais uma razão para continuar a puxar os juros básicos (Selic) para baixo.

Desaceleração

A inflação de outubro foi de 0,26% (7,87% em 12 meses), mais baixa do que a projetada pelo mercado. Reforça essa impressão a significativa desinflação dos serviços, que o Banco Central havia colocado como condição para afrouxamento da política monetária.

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