O trabalho dos idosos: hoje e amanhã

Em relação aos países avançados, o trabalho dos idosos no Brasil ainda é pequeno

José Pastore e Fabio Pina*, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2018 | 04h00

Com grande senso de oportunidade a Fecomércio-SP e o Instituto de Longevidade Mongeral-Aegon, realizarão amanhã um seminário gratuito para melhorar a compreensão sobre o trabalho dos idosos no Brasil.

Quando se cogita desse tema, surgem logo as perguntas clássicas: os idosos vão tirar o emprego dos jovens? Como garantir empregos para idosos que têm uma educação limitada? O que eles vão fazer?

O fato é que 55% dos brasileiros aposentados com mais de 60 anos continuam trabalhando: um terço está na agricultura; 14% no comércio; 10% na indústria de transformação; 8% na construção civil; 7% nos serviços domésticos; 7% em educação, saúde e serviços sociais; 5% em transporte, armazenamento e comunicações; 4,5% em alojamento e alimentação; 4,5% na administração pública (Secretaria da Previdência Social, 2017).

É muito ou pouco? Nem uma coisa, nem outra. É o inevitável. Isso porque o número de jovens vem encolhendo enquanto o de idosos vem aumentando em velocidade estratosférica. Dentro de três décadas, haverá mais brasileiros idosos do que jovens. Com a expectativa de vida em torno de 75 anos, a “meia-idade” passou para 60 anos. Hoje são prioritários nos aeroportos os que têm mais de 80 anos!

Muitos brasileiros chegarão aos 90 anos e até mais. Não haverá sistema previdenciário capaz de sustentar aposentadorias decentes por tanto tempo. Por isso, os idosos terão de trabalhar por mais tempo.

Essa guinada começou. Considerando apenas o emprego formal, a Rais (Relação Anual de Informações Sociais) indica que os empregados em geral cresceram em média 31% entre 2006-16, enquanto os empregados de 50-64 anos cresceram 82%. Entre os que têm mais de 64 anos, o crescimento foi de 131%!

Em 2006, os empregados de 50-65 anos eram 12% do total do emprego formal; em 2016, passaram para 16%. Para os que tinham mais de 64 anos, a proporção passou de 0,75% para 1,3% do total.

Em relação aos países avançados, o trabalho dos idosos no Brasil ainda é pequeno. Entre os brasileiros de 50-65 anos existentes em 2016, 24% estavam trabalhando; entre os que tinham 65 anos e mais, a proporção era de apenas 3,5%. Na Áustria, por exemplo, as proporções de idosos de 55-59 e 60-64 anos que trabalham são 67% e 27%, respectivamente; no Canadá, 71% e 51%; na Dinamarca, 81% e 55%; na França, 71% e 28%; na Alemanha, 79% e 56%; nos Estados Unidos, 69% e 54%; no Japão, 80% e 64% (John P. Martin, Live Longer, Work Longer, Bonn: Institute of Labor Economics, 2018).

Mas o que os brasileiros idosos podem fazer? É irrealista esperar deles um trabalho que envolve a força física. É igualmente irrealista esperar que realizem atividades que demandem uma educação que eles não têm. E daí?

É isso que tem levado muitos países a investir na flexibilização das leis trabalhista e na capacitação dos idosos para o mundo digital. Para ajudar na capacitação, muitas empresas passaram a simplificar os tablets, aplicativos e programas da internet de modo a facilitar a aprendizagem. Os resultados têm sido animadores (The Economist, The latest technology is even more beneficial for the old than for the young, The new old, 8/7/2017).

O Brasil tem pela frente inúmeros desafios para equacionar o problema de uma Previdência Social deficitária com o explosivo crescimento da população idosa. Passos importantes foram dados com as novas formas flexíveis de contratação trabalhista. Faltam agora o retreinamento e a capacitação para o trabalho.

*JOSÉ PASTORE É PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, PRESIDENTE DO CONSELHO DE EMPREGO E RELAÇÕES DO TRABALHO DA FECOMÉRCIO-SP E MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS; FABIO PINA É CONSULTOR ECONÔMICO DA FECOMÉRCIO-SP

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