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O trânsito ficou horrível. Hora de compartilhar?

Carsharing deve chegar a 36 milhões de usuários no mundo até 2025, mas há coisas a melhorar aqui antes para que modelo avance

Celso Ming e Raquel Brandão, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2018 | 17h00

Mais gente rodando com carros compartilhados pelas ruas das grandes cidades.

Essa começa a ser a lógica pretendida pelas montadoras nas metrópoles. O primeiro passo para o uso de veículos de terceiros foram os aplicativos de transporte, como Uber, 99 ou Cabify, que possibilitaram encontrar um carro apenas com toques no celular. Agora, iniciativas de compartilhamento de veículos se consolidam na Europa e nos Estados Unidos. Aqui no Brasil, começam a rodar seus primeiros quilômetros.

A denominação para isso, em inglês, é carsharing. É o sistema que permite o uso do mesmo veículo por várias pessoas, em períodos alternados, similar ao que acontece com as bicicletas nas grandes cidades. O interessado localiza o veículo por meio de um aplicativo. Com o mesmo aplicativo (sem necessidade de chave de contato), ele o desbloqueia e o conduz ao destino pretendido, onde o deixa estacionado para que novo interessado o use. O aluguel e o preço da corrida são calculados por tempo de uso e distância percorrida. A cobrança é feita por uma conta virtual ou pelo cartão de crédito.

As estatísticas jogam a favor do crescimento desse mercado, que deve chegar a 36 milhões de usuários no mundo até 2025, como projeta a consultoria Frost & Sullivan (veja gráfico). É muita coisa para um mercado global que hoje é de 44 milhões de veículos por ano. E é o início do que pode vir a ser uma nova cultura.

Estudo da Universidade da Califórnia demonstra que cada veículo compartilhado pode tirar até 13 outros das ruas. Esse potencial de redução de congestionamentos vem se transformando em atrativo do carsharing nas políticas de mobilidade urbana. Levantamentos realizados na União Europeia estimam que o custo dos congestionamentos alcança por lá cerca de € 100 bilhões por ano. Daí a necessidade de enfrentá-los.

Como as grandes cidades estão cada vez mais atravancadas, a ponto de tornar inevitáveis as restrições à circulação de veículos, as montadoras também entenderam que o carsharing pode ser boa saída para garantir um mercado ameaçado de exaustão.

O modelo já virou estratégia de negócios das montadoras. Exemplo disso é a alemã BMW que, ainda em 2011, criou o programa DriveNow e espalhou seus carros por Munique, Berlim, Düsseldorf e Colônia, além de São Francisco, nos Estados Unidos.

No Brasil, o conceito está em fase de testes, mas cresce com a atuação de startups. Já estão cadastrados no sistema cerca de 8 mil veículos e 230 mil usuários, a maioria em São Paulo.

No entanto, se lá fora o cenário é otimista, no Brasil a popularização do carsharing pode levar mais tempo. Felipe Barroso, criador da Zazcar, empresa de carsharing, observa que, por paradoxal que pareça, uma oferta melhor de transporte público contribuirá para a expansão do sistema: “Quanto mais as pessoas perceberem que estarão bem servidas sem carro próprio, mais o carsharing terá condições de se desenvolver”.

Mas apenas investir na integração dos meios de transporte é insuficiente. Faltam, por exemplo, vagas nas ruas e nos estacionamentos para uso exclusivo desses veículos, condição essencial para o sucesso do carsharing. Sem elas, fica difícil apanhar e devolver o carro em qualquer ponto. O plano diretor do Município de São Paulo prevê essa destinação, mas a criação de vagas depende de legislação própria.

Elias Souza, sócio da consultoria Deloitte e especialista em infraestrutura, governo e serviços públicos, adverte que é preciso mais para aumentar a eficiência da mobilidade urbana e estimular a adoção do carsharing no Brasil. “O veículo compartilhado poderá ser isento da obrigação do rodízio municipal e do IPVA?” – pergunta.

Ainda assim, Felipe Barroso, da Zazcar, entende que o modelo de negócio de sua empresa superou a principal barreira. “Os governos passados estavam interessados em puxar pelo crescimento da indústria e, por isso, estimularam a compra de veículos com fartura de crédito e juros baixos. Mas as dificuldades de movimentação pelas grandes cidades aumentaram tanto, que muita gente está repensando seus hábitos de consumo. Passou a dar mais valor ao uso do veículo do que à posse.”

E uma das consequências dessa mudança é que o carrão da família está deixando de ser símbolo de status, novidade que mais cedo ou mais tarde terá impacto também na publicidade.

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