'O trem que faça a curva'

Os moradores de Fazendinha, no sertão de Moxotó, não querem que os trilhos da ferrovia derrubem uma igreja que é símbolo do Brasil Colônia

Leonencio Nossa ENVIADO ESPECIAL / CUSTÓDIA (PE), O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2010 | 00h00

Ferrovia e patrimônio

A revolta começou quando, há poucos meses, as máquinas que abriram o caminho da ferrovia Transnordestina derrubaram velhas baraúnas e apontaram na reta da igreja de São Luiz Gonzaga, em Fazendinha, povoado perdido no sertão de Moxotó, em Pernambuco. Ali vivem cerca de 200 famílias descendentes de africanos e portugueses.

Engenheiros das empreiteiras que fazem a terraplenagem da "obra dos sonhos" do presidente Lula avisaram aos moradores que a estrada de ferro passaria por cima da igreja, que não é um templo qualquer. Trata-se de um raro símbolo do Brasil Colônia encravado desde o século 18 na caatinga.

Ninguém mais dormiu bem com a ameaça da demolição do templo branco e de portas marrons, conta o agricultor Estácio Siqueira, um senhor de 81 anos e olhos bem azuis, vestido com um jaquetão preto em meio ao mormaço do semiárido. Ele é descendente do português Pantaleão Siqueira, desbravador que teria mandado os escravos erguerem a igreja, no início do povoamento do sertão, segundo o livro Moxotó Brabo, de José Lins de Albuquerque.

"É esquisito", diz Estácio. "É preciso respeitar a idade de qualquer um. Quando eu era criança, a igreja já era caduca. O trem que faça a curva", defende.

Siqueira relata que parentes foram enterrados dentro da igreja. Era regalia de quem tinha terras. Os escravos e os homens livres sem posses eram enterrados no terreiro do lado de fora, onde agora virou um depósito de manilhas. "No meu caso não é tanto pela igreja, é pelos que estão enterrados lá", diz. "Vovô Benzinho foi enterrado no piso."

Um parêntese: é lá, no reboco de parede de quase um metro de largura, que podem estar os ossos do Capitão Lili, um dos mais temidos capangas da época do "cativeiro", como chamam o período da escravidão. Lili, conta Siqueira, tinha prazer de cortar as nádegas dos escravos e colocar sal e pimenta. Uma equipe de arqueólogos contratados pela Odebrecht, empresa que toca as obras, esteve no templo e retirou ossos do subsolo.

Numa terra em que caciques políticos são chamados de "pai" por quem ficou órfão, o mito do "Pai Arraia" - como era chamado o ex-governador Miguel Arraes - deu lugar ao do "Pai Lula" em Moxotó. Mas nem o "parentesco" com Lula contemporizou a situação em Fazendinha.

"Não vou mentir. Lula é meu pai, mas agora estou triste, com depressão", diz Marinez Teixeira Veras, de 36 anos. Mãe de três filhos menores, ela recebe R$ 200 como funcionária da prefeitura e mais R$ 145 do programa Bolsa-Família. A moradora diz que a ferrovia passará pelo povoado sem deixar benefícios. "Eles fazem as coisas sem nos ouvir", queixa-se.

As empresas aconselharam as professoras da escolinha do lugar a interromperem as aulas até o fim do mês. A professora Cintia Ribeiro diz que ainda não sabe onde a prefeitura vai pôr as crianças. O único benefício da chegada das empresas, até o momento, foi a instalação de duas cisternas para atender os trabalhadores, que os moradores aproveitam para abastecer as casas. Não há água encanada em Fazendinha.

O diretório do PT em Custódia não quis entrar na briga. O prefeito Demias Gonçalves de Lima, do PSB do governador Eduardo Campos, não sabe de que lado fica. Gonçalves, que teve mais de 300 votos no povoado nas últimas eleições, diz que quem não sabe o que quer são os moradores. "O povo está dividido entre o desenvolvimento e a tradição", afirma.

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